Rosa Passos canta a dor do amor em 'Romance'
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Luiz Fernando Vianna<br> Folhapress 
Que cantora brasileira teria a pachorra de emendar ''Atrás da Porta'' (Francis Hime/Chico Buarque) com ''Tatuagem'' (Chico/Ruy Guerra) e sobreviver ao fantasma das interpretações de Elis Regina? A destemida chama-se Rosa Passos.
''Romance'', seu CD lançado nos EUA em maio e agora aqui, oferece, sem a arrogância de pretender fazê-lo, duas lições. A primeira é que é possível ser extremamente comovente sem verter lágrimas de sangue, cantando baixinho, numa linha alternativa à que (com justiça) é hegemônica no canto feminino brasileiro - de Elizeth Cardoso a Nana Caymmi, de Dalva de Oliveira a Maria Bethânia. A baiana Rosa é Blossom Dearie, não Ella Fitzgerald.
A segunda vem de ter usado sua bagagem jazzística e sua carreira internacional para fazer um disco brasileiro de ''torch songs'', como os americanos chamam as músicas despedaça-coração. Por aqui, elas estão pejorativamente marcadas como ''canções de fossa'', resultado da lavagem cerebral-sentimental que nos leva a procurar alegria a todo custo, sem perceber que, salvo exceções, as coisas tristes são as mais belas - o que só reforça o fato de a alegria ser a prova dos nove.
Rosa montou um impecável repertório de 12 faixas, unidas nas letras por desamparo, desespero, amores perdidos e até achados. A sonoridade é jazzística, assentada sobre a bateria com escovinhas (de Celso de Almeida) e sem o violão marcante da intérprete - mas com o do grande Lula Galvão.
Ela se distancia, por um momento, da bossa nova a que se ligou em vários discos - sendo ''Amorosa'' (2004) o melhor deles - e que lhe valeu o apelido já clichê de ''João Gilberto de saias''. A única música afim é ''Eu Sei que Vou te Amar'' (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes), mas com arranjo nada bossa, sofrendo inclusive uma introdução muito pesada de sopros.
A unidade das faixas é tão consistente que fica difícil destacar esta ou aquela. Pode-se falar, por exemplo, em ''Doce Presença'' (Ivan Lins/ Vitor Martins), na qual Rosa altera a posição dos momentos fortes, fazendo uma versão muito diferente da de Nana.
E ainda em ''Altos e Baixos'' (Sueli Costa/ Aldir Blanc), outra Elis intocável que ela toca com algum balanço, mas sem mascarar nada da dor de um casamento acabado entre tapas e uísques. Para adoçar (ou amargar) a boca de quem gosta do que é bonito, ainda há ''Nem Eu'' (Dorival Caymmi) e ''Álibi'' (Djavan), entre outras. Aos 56, Rosa se queixa de que é pouco conhecida no Brasil. Este disco pode reduzir um pouco a injustiça.


