Rosa lírica do samba
Antônio Mariano Júnior
De Londrina
No escaninho da MPB mais uma correspondência importante. A remetente, Rosa Passos. Quem abrir o pacote vai encontrar o CD Morada do Samba (Lumiar) em que a cantora e compositora baiana, radicada em Brasília, manda notícias frescas através de oito músicas inéditas e outras histórias melhores contadas nas quatro regravações que fez de clássicos da MPB do nobre Caymmi, o velho homem do mar, foram pinçadas Lá Vem a Baiana e Saudade da Bahia. O disco será lançado no exterior Japão, Europa e EUA onde Rosa Passos vem construindo uma surpreendente carreira e pontos distantes demais para a forte miopia da mídia brasileira.
Em Morada do Samba, Rosa ainda brinca com o andamento das canções. É o seu grande barato. No entanto, a quebra dos compassos, a maneira peculiaríssima e genial de burilar frases melódicas está mais contida. Não, Rosa não aderiu ao convencionalismo. Não e não!! Só que no novo trabalho percebe-se a busca do essencial. Isto é, compor, tocar e cantar músicas de altíssimas qualidade sem recorrer em demasia aos seus fantásticos malabarismos rítmicos. Mas o sotaque jazzístico ainda continua forte. E isso é bom.
Morada do Samba abre e fecha com dois sambas anteriormente gravados: Beiral (Djavan), em que Rosa imprime seu jeito particularíssimo de intérprete com direito a uma saborosa mexidinha no andamento original; e a belíssima Retiro (Paulinho da Viola), agora com acento bossa-novístico. As regravações contemplam Dorival Caymmi em dose dupla, ambas com Rosa à frente do violão e arranjos. Das duas, La Vem a Baiana é a que ela melhor redesenha o compasso.
Por ser um disco autoral depois de dois trabalhos anteriores em que releu obras de Ary Barroso e Tom Jobim nada mais natural querer saber a quantas anda a musicalidade da compositora Rosa Passos. Vai muitíssimo bem, obrigado! Como melodista, Rosa apresenta, por ora, sonoridades digamos mais ortodoxas. Simples e elegantes. Simples mas não retilíneas e previsíveis. Essenciais!!!
Morada do Sol tem produção de Almir Chediak e da própria Rosa. Os arranjos saíram da imaginação dela, de Gilson Peranzetta e Lula Galvão (alter ego musical da baiana). No time de músicos, velhos conhecidos como o baterista Erivelton Silva e o baixista Jorge Helder. Ah, sim, Rosa atua aqui e ali como instrumentista (boas oportunidades para se atentar ao violão da moça).
Para revestir melodias intrincadas, o eterno parceiro Fernando de Oliveira. Que deu linhas interessantes a Esmeraldas e Pequena Música Noturna (essa é uma das que vale a pena bisar). Com Sérgio Natureza estabelece-se também uma feliz parceria. Porém, é com Walmir Palma, desconhecido do grande público e velho amigo e parceiro, que Rosa consegue alguns de seus melhores momentos. A começar por Primavera, um bolero.
Sim, um bolero cuja letra foge dos motes preferidos por compositores do gênero os cotovelos em chama e amores sombrios. Rosa encobriu os versos com uma inspirada e sinuosa melodia distante pra caramba dos boleros-leros da vida.
Agora, Marco (Rosa Passos e Sérgio Natureza), um blues, é a jóia mais preciosa do disco. Diz um certo trecho da canção: Eu pastoreio nas ondas/ No meio das trevas de mil furacões/ Na tempestade sou vela/ Aquela que zela por belas canções. Nessas linhas se encontram não só a melhor tradução de Morada do Sol como as mais sinceras palavras que expressam a missão de Rosa Passos na MPB.





