Roqueiros ignoram os ecos do Credicard Hall
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sábado, 02 de outubro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 03 (AAE) - A abertura para o público da casa de espetáculos Credicard Hall, no sábado, às 23 horas, foi com uma concorrida apresentação conjunta das decanas bandas do rock nacional, Paralamas e Titãs. Cerca de 7 mil pessoas lotaram o local, numa noite de muita chuva. Paralamas e Titãs tocaram 30 canções das duas bandas, além de "Should I Stay or Should I Go" (do grupo inglês The Clash), "Pelados em Santos" (dos Mamonas Assassinas) e "Manguetown" (de Chico Science e Nação Zumbi).
A acústica da casa - criticada na estréia, quarta-feira à noite, pelo cantor baiano João Gilberto - ainda apresenta problemas de reverberação de som (principalmente para o público que fica nos primeiros 20 metros de proximidade do palco). A casa também abriu para o público com outros problemas: os telefones públicos estão desligados; os bares tinham filas descomunais e preços idem (a lata de cerveja custa R$ 4,00 e uma bebida energética, R$ 8,00) e o estacionamento custa R$ 10,00. Este último foi o grande problema para o público que pagou R$ 12 50 (com carteirinha de estudante) para ver os grupos e quase a mesma coisa para estacionar o carro. Não houve incidentes de segurança.
Contratados pela Johnson & Johnson para juntar forças num projeto "mix" de bandas de rock, os Paralamas e os Titãs fizeram um show animado e em nenhum momento se referiram ao "efeito João Gilberto", o caso ruidoso da estréia da casa, no dia 29. O problema foi parcialmente resolvido com a aplicação de placas sobre as paredes de vidro dos camarotes e das suítes da casa, mas o eco persiste e causa péssima impressão. O Credicard Hall custou US$ 34 milhões e os proprietários (Fernando Altério e Nizan Guanaes estavam anteontem lá, na suíte número 1) tentam achar uma solução rápida para o problema.
Os Paralamas abriram a noite com "Vamo Batê Lata", do disco "Severino" (1995). Depois, emendaram "Lourinha Bombril", "Meu Erro", "Que País É Esse" (Legião Urbana), "Alagados", "Você" (Tim Maia), "Manguetown", "Lanterna dos Afogados", "Uma Brasileira" e "Vital e Sua Moto". Em seguida, com os Titãs, cantaram "O Beco". Os Titãs aí tomaram a cena. Abriram com "Sonífera Ilha" e depois tocaram "Homem Primata", "O Pulso", "É Preciso Saber Viver", "Não Vou Me Adaptar", "O Cego no Castelo", "Pelados em Santos" e "Flores". Após tocar "Bichos Escrotos", chamaram o guitarrista do Sepultura, Andreas Kisser, para acompanhá-los em "Polícia".
Depois, vieram os Paralamas e as bandas fizeram o set juntas, de cerca de meia hora, aberto com "Marvin", dos Titãs. O show agradou a platéia, mas é sempre melancólico ver os Titãs de terninhos e sapatos vermelhos e brancos agitando os braços em movimentos de axé music e afundado-se de vez no universo populista das covers. É uma desonra para o Elvis Presley estampado no violão ovation de Marcelo Frommer.
E os Paralamas precisam reaprender a dar sentido às coisas que cantam. É duro ver um verso como "e a liberdade cai por terra aos pés de um filme de Godard" esvaziado, após ter sido tão efetivo para liberar "Je Vous Salue Marie" e ajudar a pôr um dos últimos pregos no caixão da censura.


