Roqueiros ajudam reconstrução de Kosovo com CD
São Paulo, 16 (AE) - Os refugiados da província iugoslava de Kosovo, que esta semana começaram a voltar para casa, ganharam um aliado inesperado na indústria do disco. Mesmo que não houvesse causa em jogo, a coletânea "No Boundaries", que aqui virou "Sem Fronteiras", por si só conseguiria mobilizar milhares de fãs de rock em todo o mundo. Afinal, os artistas que cederam faixas inéditas, raridades, remixes e versões ao vivo para o CD estão entre os mais famosos do gênero.
A rapidez com que o CD chega às lojas impressiona especialmente por o projeto incluir faixas diferenciadas em cada país - Mestre Ambrósio e Dread Lion entraram na edição brasileira. A "internacionalização" não impede que ele seja visto como um produto do país que liderou a campanha militar da Otan - vale reparar que o dinheiro arrecadado não será usado para reconstruir a Iugoslávia, somente os kosovares foram contemplados. Por outro lado, não deixa de ser irônico que, sob as explosões, a população sérvia também tenha buscado no rock uma forma de manifestar-se, organizando shows de bandas locais contra os bombardeios à Iuguslávia.
A causa kosovar ainda encontrou um bom motivo dentro da gravadora Epic (do conglomerado Sony), que doou US$ 1 milhão às organizações Care, Oxfam e Doctors Without Borders, envolvidas com os refugiados. "No Boundaries" foi um modo rápido e eficiente para reverter os prejuízos causados por uma (outra) boa ação do grupo Pearl Jam.
A banda distribuiu um disco gratuito no último Natal, com duas faixas inéditas, exclusivamente para membros de seu fã-clube oficial. O lado A, "Last Kiss", acabou chegando às rádios dos Estados Unidos. Em pouco tempo, a música tornou-se um hit à margem da gravadora. A inclusão de Last Kiss e seu lado B, "Soldier of Love", atende à demanda criada. Não é só coincidência o fato de as duas faixas, que são covers, terem sido escolhidas para virar o primeiro single da coletânea.
"Last Kiss", escrita por Georgian Wayne Cochran sobre um acidente automobilístico fatal, foi popularizada por Frank Wilson and the Cavaliers. Apesar do tema mórbido, chegou ao segundo lugar da Billboard em 1964. "Soldier of Love" é a mais conhecida, graças à versão feita pelos Beatles no disco "Live at BBC". O original alegre da lenda do country-soul "Arthur Alexander" ganha do vocalista Eddie Vedder uma interpretação soturna. A letra, na linha "faça amor, não faça guerra", cai sob medida ao contexto da coletânea, mas a excelência da versão do Pearl Jam justificaria a compra de qualquer álbum que a trouxesse.
O grupo Rage Against the Machine, campeão das boas causas, contribui com outro cover que os fãs há muito procuram nas importadoras. Sua versão de "The Ghost of Tom Joad", até então disponível apenas num homevídeo, deixa o original irreconhecível. O rock sobre imigrantes ilegais na fronteira sul dos Estados Unidos, que parece escrito sob medida para o vocalista Zack de La Rocha, traz a assinatura de Bruce Springsteen. "Bem-vindo à nova ordem mundial", diz a letra, a certa altura, levando dissonância ao discurso humanitário da Otan.
Uma das surpresas do CD é a participação de artistas de várias vertentes do rock. Os metaleiros vêm bem representados em seus extremos pelo moderno grupo Korn e pelo veterano Black Sabbath. Este, por sinal, que sempre denunciou as guerras em suas letras, aparece num remix de" Butch Vig", do grupo Garbage. Oasis, Jamiroquai e Bush respondem pela Inglaterra, principal aliada americana na ofensiva da Otan. Além destes, chama a atenção a participação dos Wallflowers, do filho de Bob Dylan, militante de muitas manifestações contra a guerra do Vietnã nos anos 60.
As interpretações de Neil Young e Alanis Morissette também mantêm o nível elevado. Mas, num disco cheio de estrelas, não deixa de ser curioso perceber que as menos cotadas Indigo Girls se destacam com alguma folga, graças à ótima "Go", gravada ao vivo com participação de Jane Siberry, Lisa Germano e a baterista Kate Shellembach, da banda feminina Luscious Jackson.





