Há alguma coisa deliciosamente anacrônica logo na abertura de ''Coração de Cavaleiro'' (veja a programação de cinema na página 5). Correm os anos de 1400, o século 15 em pleno andamento. A multidão assiste seu esporte favorito lotando a liça, aquela arena já tantas vezes visitada pelo cinema, onde nobres cavaleiros travam duelos a cavalo, metidos em reluzentes armaduras. A diferença é que, no lugar de graves trombetas altissonantes, aqui a trilha musical que se ouve é ''We Will Rock You'', isso mesmo, Freddy Mercury comandando o Queens. Inteligente sem presunção, sensível sem melosidades e engraçado sem deslizar para a comicidade over, ''A Knight's Tale'' é diversão garantida até para platéias que não mantém relações cordiais com o rock.
William Tatcher (Heath Ledger, o primogênito de Mel Gibson em ''O Patriota''), sem uma gota de sangue aristocrata, é o fiel valete de armas de um destacado cavaleiro que morre pouco antes de ganhar um torneio. Num momento de arrebatada paixão, o escudeiro veste a armadura, cavalga com competência e vence a disputa final, para alegria do público e de seus dois co-escudeiros, Roland e Wat. O trio decide então fazer fama e fortuna Europa afora, percorrendo uma espécie de circuito de fórmula 1 das principais arenas, rumo à grande final em Londres. Mas há um problema: apesar de exímio cavaleiro e duelista, William não pode participar de um esporte exclusivo de bem-nascidos. A ele falta atestado de berço, logo falsificado por um poeta e trovador estradeiro, Geoffrey Chaucer, o próprio autor dos ''Contos de Canterbury'' em que se baseia a história. E com o pomposo nome fictício de Sir Ulrich von Lichtenstein de Gelderland, embalado por letra e música de ''Golden Years'' na voz de David Bowie, o cavaleiro segue em busca de seu sonho. No caminho, claro, não faltam o amor da bela, nobre e esperta donzela Jocelyn, encantada pelos poemas de William - escritos obviamente por Chaucer - e o ódio mortal do Conde Adhemar, preterido pela jovem.
Em certo sentido, ''Coração de Cavaleiro'' representa a volta por cima do diretor Brian Helgeland, sumariamente despedido por Mel Gibson há alguns anos nas primeiras semanas de filmagem de ''O Troco''. Também escrito e produzido por ele, o filme, com boa dose de charme e eficiência, cumpre o que promete: energizar e divertir o espectador na poltrona, não apenas com uma vibrante trilha sonora mas com um conjunto uniforme de sequências de ação fotografadas e montadas de maneira a valorizar ao máximo a coreografia dos duelos. Ainda que se possa esquecê-lo no dia seguinte, ''A Knight's Tale'' é entretenimento irreverente e amável.

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