O dramaturgo, cineasta, pintor, fotógrafo e enxadrista Fernando Arrabal vive numa opressão íntima interminável, desde que sua mãe, Carmen Teran Arrabal, tentou banir a imagem do pai, omitindo a história de comunista encarcerado e desaparecido. Somente aos 16 anos, ele soube da verdade e rompeu com a mãe. Sua primeira peça ‘‘Picnic no Front’’ foi considerada uma jóia surrealista. Em 1955 vai para Paris e turberculoso fica um ano e meio num sanatório, onde escreveu quatro peças: ‘‘Fando e Lis’’, ‘‘Cerimônia para um Negro Assassinado’’, ‘‘O Labirinto’’ e Os Dois Carrascos’’.
Para entender um dos maiores representantes do teatro do absurdo é preciso inseri-lo em seu tempo. No contexto da segunda guerra e no pós-guerra, intelectuais europeus pintaram um retrato desiludido do mundo dilacerado por conflitos e ideologias. A peça absurda surgiu nesse contexto, como antipeça da dramaturgia clássica, do sistema épico brechtiano e do realismo do teatro popular. A forma preferida da dramaturgia absurda é a da peça sem intrigas, nem personagens claramente definidos. O acaso e a invenção reinam nela como senhores absolutos. O absurdo reteve a capacidade de sublimar a escrita do sonho, do subconsciente e do mundo mental.
Geralmente, o herói arrabaliano é ambíguo, tirano e cruel, vítima e carrasco, motivado por desejos primários e não idéias. A mulher aparece sob um tríplice aspecto de mãe-criança-prostituta, plena de instintos e intuição. Em ‘‘Fando e Lis’’, o casal reescreve a história de Romeu e Julieta, mas o amor é negado pelas condições físicas de Lis, que é paralítica. Sem poder possuí-la fisicamente, ele deseja transformar seu desejo sexual em violência. Nessa peça, Fernando Arrabal instala os personagens numa caminhada para a purificação, expondo zonas de sombra e luz. Eles trafegam nos caminhos do mito da modernidade, quando se busca a liberdade pela fuga ou saída de casa. Fando destrói a integridade da personalidade de Lis, transformando-a numa trêmula massa, sem auto-domínio.
Arrabal foi um dos criadores do Movimento Pânico, que tinha por fundamento a exaltação da moral múltipla. O herói do pânico era um desertor. Dessa fase surge uma de suas melhores peças ‘‘O Arquiteto e o Imperador da Assíria’’, em que um civilizado e um primitivo se digladiam num ritual antropofágico. Na verdade, o gênio criativo realiza sempre a mesma obra, delirante e autobiográfica. ‘‘Apenas ao se desenvolver sobre três modos, o do grotesco, o do sublime e do rito, que o teatro pode lançar certa luz sobre nossas interrogações’’, declarou em 1969, valendo para os dias atuais.
• ‘‘Fando e Lis’’, com o Grupo Boca de Baco. Texto de Fernando Arrabal, tradução de Marcos Losnak. Concepção, direção e iluminação de Luiz Valcazaras; assistente de direção: Claudio Rodrigues; com Beto Passini, Jackeline Seglin, Paulo Munhoz, Nivaldo Lino, Walter Balthazar; trilha sonora: Marco Tureta e Henrique Bittencourt, figurino, adereços e cenário: Mauro Rodrigues. Patrocínio: Prefeitura Municipal de Londrina (Lei Municipal de Incentivo à Cultura), Rio-Sul, Assoc. Pessoal da Caixa Econômica Federal, CEDDO, Riatla e Hospital de Otorrino de Londrina. Temporada de hoje a 29 de julho, de sexta a domingo, às 21 horas, no Teatro Núcleo I, em Londrina (Rua Quintino Bocaiuva, 1243). Ingressos: antecipados e estudantes: R$ 5,00, na hora R$ 10,00.

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