ROMANTISMO SEM LIMITES
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quinta-feira, 06 de julho de 2000
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
A boemia mais romântica desemboca na serenata, gênero tão antigo quanto a história do Brasil. Há séculos, pelas ruas, músicos transitam madrugada afora em busca de atenção feminina. Hoje, na verticalidade dos edifícios, a prática ganhou obstáculos, mas sobreviveu com apoio tecnológico. Em Londrina, por exemplo, é possível organizar uma serenata por telefone, com o Disk-Serenata.
O serviço que não é exatamente uma novidade , ganha respaldo com instrumentistas e cantores veteranos, que se desenvolveram embaixo de varandas e janelas. Roberto Guerra e Osvaldo Renê cultivam a serenata desde que abandonaram as calças curtas.
O gênero, que no Brasil também se chama seresta, já foi descrito por Gil Vicente em Portugal por volta de 1505. Aqui, acumula registros desde século 18, quando se aproximava de obras camerísticas. Já em meados do século 19, ganhou acompanhamento de grupos de choro, apoiado por flauta, violão e cavaquinho. Roberto Guerra descende desta linhagem, e ainda hoje se dedica ao choro com afinco.
O hábito se espalhou também pela América espanhola, tornando-se comum na Argentina. Nós cantávamos guarânias, valsas e tangos, havia até um gênero, canción-serenata, que era romântico, falava do amor e da figura da mulher, comenta Renê, argentino de nascimento e brasileiro por opção.
Ambos tocam juntos e aceitam pedidos por telefone. O preço varia de acordo com as exigências do cliente, a duração, o repertório, o local, enfim, há uma série de variantes que definem o valor. A gente negocia, determina horário, vê se faz dentro ou fora, quantas horas, a pessoa pode escolher o repertório e o preço a gente combina, argumenta Roberto Guerra. Desde que transformaram o prazer em negócio, os músicos já realizaram pelo menos 20 serenatas.
Mas o hábito é antigo. Renê lembra, na adolescência, as ocasiões em que o violão virava instrumento de paquera: Não havia necessidade de uma data, nos encontrávamos e dizíamos: Vamos fazer uma serenata? E fazíamos.
A música acompanha ambos como profissão. Roberto Guerra, aos 17 anos, participava de um conjunto em Porecatu, onde permaneceu até se mudar para Londrina, em 1964. Na cidade, começou a participar do Clube do Choro, que por nove anos manteve um programa local de televisão.
Renê foi crooner de conjunto na Argentina. Durante uma apresentação em Assunção, no Paraguai, recebeu um convite para permanecer na cidade. De Assunção foi para Porto Stroessner hoje Ciudad del Leste e tocou em Marechal Rondon, já no Paraná. Em 1977 chegou a Londrina.
A serenata mexia com a gente, naquela época todas as casas eram térreas. Tocávamos tango, valsa, samba-canção... E havia diversas músicas, como Cabocla, Eu Sonhei que tu Estavas Tão Linda e Rosa, do Pixinguinha, isso não morre nunca. Que beleza, como eu me lembro disso, destaca Roberto Guerra.
Para a dupla, uma boa serenata é motivo para driblar qualquer inconveniente, seja em edifícios ou lugares abertos. Nas ruas, colegas do orvalho, violões e vozes obedecem à estratégia do empate: tanto quem toca como quem ouve aproveitam a surpresa.
O disk-serenata atende pelos telefones (43) 324-3788 (Roberto Guerra) ou (43) 325-4949 (Renê).


