É possível, sim, dosar canções de amor com potes generosos de açúcar. A cantora Ana Carolina aderiu à dieta, recomendável inclusive para diabéticos, em seu novo CD ‘‘Ana Rita Joana Iracema e Carolina’’ (BMG).
De apelo pop, o disco é repleto de baladas românticas doloridas. A faixa ‘‘Quem de Nós Dois’’, uma versão da canção italiana ‘‘La Mia Storia Tra Le Dita’’ (de Gean Luca Grignani e Massimo Luca), entrou na trilha sonora da novela Um Anjo Caiu do Céu e já emplacou nas FMs.
O tema é surrado, mas recorrente e inevitável. ‘‘E cada vez que eu fujo eu me aproximo mais’’ – canta ela para corações partidos. Seu novo repertório contém potencial radiofônico para superar a marca do álbum de estréia, que foi lançado há dois anos garantindo-lhe um disco de ouro com mais de 150 mil cópias vendidas.
Além do melodismo confessional, o disco envereda aqui e ali por registros rítmicos pontuadas por pandeiros, estes tocados pela própria cantora. Ana Carolina é acessível, mas não faz concessões. Sua voz de timbre grave e marcante parece domar as influências de Cássia Eller e Zélia Duncan, escandalosas no primeiro disco. A cantora assina 11 faixas, cinco delas sozinha.
Para os paranaenses, a curiosidade fica por conta de ‘‘Dadivosa’’, um poema da londrinense Neusa Pinheiro que Ana musicou em parceria com Adriana Calcanhotto. A música, um dos destaques do disco com arranjo de cordas de Nilo Romero, inclui trechos sampleados de Maria Bethânia cantando ‘‘Era Uma Vez’’.
O que já sugere uma confraria de mulheres, ganha mais quatro reforços no disco: Vanessa da Mata na parceria de ‘‘Me Senta na Rua’’; Alcione com a participação no samba-funk ‘‘Violão e Voz’’; Dalva de Oliveira com a regravação de ‘‘Que Serᒒ, seu grande sucesso de 1950; e a escritora Adélia Prado, a quem é dedicada a faixa ‘‘Joana’’.
A própria trajetória da cantora é emblemática. Ana sempre contou com ajuda feminina. Os primeiros shows foram produzidos pela atriz e cantora Zezé Motta. E foi num deles, no bar carioca Mistura Fina, que Luciana de Moraes (filha de Vinícius) a descobriu levando depois uma demo da cantora para Jorge Davidson, diretor-artístico da BMG.
A faixa ‘‘Ela é Bamba’’, de seu parceiro habitual Totonho Villeroy, parece condensar o conceito feminino do álbum. ‘‘Ela é bamba / Ela é bamba a mestiça é todo gás / Cada braço é uma viga do país / Abre o olho com ela meu rapaz / Ela é quase tudo que se diz / Quando compra uma briga ela é demais’’. Ana vai longe.

mockup