Em ‘A Forma da Água’, Del Toro aperta o coração do público como poucos cineastas sabem fazer
Em ‘A Forma da Água’, Del Toro aperta o coração do público como poucos cineastas sabem fazer | Foto: Reprodução



Com a respeitável soma de 13 indicações ao Oscar (uma a menos que o recorde na história do prêmio), estreia hoje oficialmente no Brasil "A Forma da Água", mais recente e bem sucedida experiência – a décima de uma carreira que até agora tinha como grande momento "O Labirinto do Fauno" – do mexicano Guillhermo del Toro em território em que vai se transformando em mestre: um cinema fantástico único, que mescla romance, fantasia e realidade. O filme se abre ao espectador como um conto de fadas. Uma voz em off introduz a história de Elisa, mulher muda (mas não surda) e solitária , cujos únicos amigos são um vizinho homossexual à beira da terceira idade e sua muito falante amiga faxineira nos subterrâneos do laboratório militar secreto do governo dos EUA, perto de Baltimore.
Feita a apresentação, não demora até que o público se dê conta de que esta diante de uma trama de amor e solidariedade entre marginalizados (monstros ou não) nos Estados Unidos na década de 1960. Uma fábula romântica e política, mas também uma de certa forma despudorada declaração de amor ao cinema. "A Forma da Água" é um desses filmes que aos poucos tomam conta do espectador através dos sentidos – da beleza de sua encenação às emoções despertadas por sua trama –, pela generosidade de sua abordagem e pelo extremado carinho que Del Toro manifesta pelo material que vai desenvolvendo.

"A Forma da Água" pode ser lido como a love story entre a moça solitária e um monstro metade homem, metade peixe, metade Deus (?) como outra versão melancólica da narrativa da Bela e a Fera, ou como um filme sobre uma cultura que despreza e marginaliza o diferente – "Extraordinário" é um exemplo disso. Mas afinal "A Forma da Água" é de fato um relato clássico, uma espécie de poema amoroso filmado sobre o outro (ou os outros), sobre aquilo que eles precisam enfrentar para sobreviver em uma sociedade que os ignora ou extermina; e sobre a solidariedade que surge entre eles a partir de suas imensas dificuldades para continuar vivendo ou sobrevivendo.

Fábula - Curioso nesta aposta do diretor é que ele parece ter adotado um tom de fabula nostálgica quase apta a qualquer público. Mas de repente, surpreendentemente, fica claro que o estilo pode ser fantasioso, mas as atitudes, os desejos e as emoções que estão por baixo deste inocente colorido são totalmente adultos. Del Toro tangencia os limites da fábula, mas conduz tudo para um território que normalmente é deixado de fora (como um subtexto) deste tipo de história, para então apresentar ao espectador situações e sensações visivelmente adultas. Vemos, por exemplo, que Elisa (Sally Hawkins) pode parecer personagem de conto de fadas; mas ela é alguém que está, pelo menos na intimidade, fazendo coincidir seus sonhos com seu corpo e seus desejos. E seu silêncio não é meramente decorativo, nem um maneirismo (como Amelie Poulain) para nos enredar amorosamente em seus olhos ou nos gestos da atriz. Não. Elisa é muda e em seu pescoço tem marcas de algum grande dano físico (ou seriam guelras...?) e emocional ocorrido há tempos. O mesmo se passa como o artista plástico e solteirão gay Giles, e com a afro-americana Zelda, que trabalha com Elisa, tem complicada relação com o marido e sofre persistente racismo. E há outros personagens cujos segredos não cabe aqui revelar.
Não deixa de ser prova de valentia, a de Del Toro, ao afrontar, do início ao fim, a vertente luxuriosa de seu conto de fadas. Uma aposta pela sensualidade e a corporalidade. Os personagens descobrem na ternura sexual a igualdade entre todos os seres: a via definitiva para fechar o ciclo do amor. Uma visão das relações humanas que, no cinema atual, parece coisa de contracultura. Uma aposta pelo afetivo, por um sentido moral da vida emocional. "A Forma da Água" é mesmo um conto de fadas, as vezes obscuro, outras luminoso, denso e amável, que causa espanto, mas também é capaz de apertar os corações como poucos cineastas contemporâneos se atrevem a fazer – Spielberg, Todd Haynes, Tim Burton e só. Sem medo e sem vergonha. Confiando que o amor e o carinho que sentem por suas incompreendidas criaturas estarão colados no espectador, dando forma e emoção a seus maravilhoso e humanistas relatos.
Vale traduzir o poema que fecha o filme.

"Incapaz de definir a tua forma,
Eu o vejo ao meu redor.
Tua presença preenche meus olhos
Com o teu amor
Acalenta meu coração,
Pois tu estás em todos os lugares".

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