Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Enquanto o mercado latino-americano cresce no cenário mundial, a indústria fonográfica brasileira continua fazendo vistas grossas para compositores importantes que permanecem quase desconhecidos por aqui. Mesmo com a bênção do pop, músicos latinos raramente conseguem repercussão em nosso mercado atual.
Por isso os brasileiros acumulam uma ignorância de proporções lamentáveis sobre as melodias que chamam a atenção nos países vizinhos. Quando, no entanto, o diálogo sério entre a música de outros lugares da América Latina e a brasileira se estabelece, o resultado geralmente apresenta qualidade.
É o caso de ‘‘Ares de Havana’’, disco que a cantora Selma Reis está lançando após um período de intenso convívio com melodias, compositores e instrumentistas de Cuba. Neste caso, o diálogo equilibrou a visão de uma brasileira sobre a música cubana, com participação e sugestões de músicos caribenhos.
O equilíbrio ganhou respaldo na experiência da mezzo-soprano, que embutiu sua voz encorpada em um trajeto sutil, embrenhando-se com facilidade em arranjos de cordas, piano e violão. Os momentos viscerais são poupados, Selma Reis apresenta maturidade para não embarcar em exibicionismos.
Lançado pela Velas, ‘‘Ares de Havana’’ traz composições que marcaram época a partir da década de 40, como ‘‘Ay Amor’’ (Ignacio Villa Bola de Nieve) – gravada anteriormente por Caetano Veloso, e a rumba ‘‘Babalu’’ (Margarita Lecuona). Entre os compositores selecionados estão ainda Adolfo Guzmán, Beny Moré, Silvio Rodriguez, Alberto Tosca, Ernesto Grenet Wuud e Julián Gutiérrez.
A interpretação cuidadosa de Selma Reis ganhou destaque em um instrumental que também evita excessos, reforçado com os arranjos de Roberto Carcasses e o produtor Rodolfo Athayde. O conjunto foi formado com Frank Emílio no piano, Dom Pancho na percussão, Elmer e Pedro Luís Ferrer no violão, Yanela na harpa, e Roberto Platt na bateria, além da participação do Quinteto Diapason de cordas.
O álbum foi gravado em Havana em apenas uma semana. Selma Reis ficou 30 dias na cidade pesquisando o repertório, conhecendo os músicos, aprendendo espanhol e gravando as faixas. De São Paulo, a caminho de uma rádio, a cantora concedeu a seguinte entrevista, por telefone, à Folha2.
Como surgiu a idéia de gravar um disco de músicas cubanas em Havana?
Isso foi idéia do Vitor Martins (compositor/produtor). Eu tinha uma referência, conhecia o Bola de Nieve, Pablo Milanés e o Silvio Rodriguez. Mas não sabia que era uma música tão rica, muito parecida com a música brasileira em ritmos, melodia e harmonia. Quando me deparei com a pesquisa, vi que as músicas eram de uma riqueza...
Foi complicado aprender espanhol e gravar em tão pouco tempo?
Eu já havia cantado em inglês e francês, gravado inclusive. Mas o espanhol eu não tinha domínio, é uma língua muito parecida com a nossa, mas tem que tomar cuidado para não cair no portunhol. É uma língua com outra musicalidade, mas eu tenho facilidade. Tem uns fonemas lindos, eu adorei.
E os trabalhos no estúdio em Havana?
Passei 20 dias enfurnada no estúdio, ensaiando, elaborando, lá eu conheci os músicos – o produtor eu já conhecia. Mas elaborar e ver o que iria fazer foi lá em Cuba. Foi maravilhoso porque eu mergulhei na música com os cubanos. Nós trocamos informações sobre o que eu queria como brasileira e o que eles me ofereciam como cubanos.
O disco tem uma série de participações especiais.
Não é uma série, a gente teve participação do Pedro Luís Ferrer, que é famosíssimo e tem a mesma importância do Pablo Milanés, mas que aqui a gente não conhece. Gravei uma música dele. Temos também o arranjador Roberto Carcasses, que fez toda a direção musical do disco e é impecável e criativo.
O resultado correspondeu à expectativa?
É o meu melhor disco, estou encantada, foi um algo que me pegou de surpresa e eu tive que trabalhar muito em cima. Mas me pegou em um período de amadurecimento para fazer um trabalho diferente, tudo era estranho. Tem alguns dias que o disco saiu e eu sinto as pessoas adorando.

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