Romances de Agatha Christie ganham novo projeto gráfico
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de outubro de 2002
Haroldo Ceravolo Sereza<br>Agência Estado 
São Paulo Na página oficial da escritora Agatha Christie, na internet, pode-se encontrar o seguinte comentário, deixado por uma leitora envolvida numa discussão: Bom, vamos colocar a questão da seguinte forma: se você não é uma pessoa lógica, é um leitor vulgar, tem o cérebro não grande o suficiente para pensar e é ainda um bocó esquisitão, então você tem de acreditar que Stephen King é melhor; porém, se você é o oposto disso, deve gostar de Agatha Christie, e como ocorre de eu ser uma pessoa lógica, gosto de ler algo que me entretenha e ainda me faça pensar.
Para quem lê literatura, especialmente romances policiais, Agatha Christie (1890-1976) é como jogar War ou Banco Imobiliário no fim da infância, começo da adolescência: há aqueles que se matam para vencer o jogo, há aqueles que se divertem com a brincadeira, há os que detestam, mas não conseguem escapar dela sempre, sob pena de ser excluído da turma.
Conhecida como Rainha do Crime, Agatha Christie, segundo ainda seu site, já vendeu um bilhão de exemplares de seus romances no Reino Unido e outro bilhão mundo afora. No Brasil, a grande maioria de seus mais de 80 romances policiais é editada pela Nova Fronteira, que acaba de iniciar a republicação das obras com um novo projeto gráfico. Já estão de volta às prateleiras das livrarias romances como Assassinato no Expresso do Oriente, Morte na Mesopotâmia, O Mistério dos Sete Relógios e Treze à Mesa, todos esses custando R$ 28. Ao todo, 76 romances, entre os assinados por ela e os assumidos por pseudônimos, devem ganhar essa cara nova.
Agatha é de fato um fenômeno. Certa vez, Maria da Penha Villalobos e João Villalobos assinaram um artigo no jornal O Estado de S. Paulo afirmando que ela é uma mestra em dissimular pistas, em criar situações que induzam o leitor a suspeitar de personagens que, depois, ao final, surgem como perfeitamente inocentes. Eles também argumentam que essa é sua técnica fundamental; é o recurso sempre presente em seus contos e novelas e particularmente naqueles em que Poirot é o detetive.
Poirot, claro, é o detetive belga criado por Agatha para solucionar boa parte dos mistérios desenvolvidos pela autora britânica. Para quem esqueceu os detalhes, ele cultiva hábitos estranhos: dorme com rede no cabelo e usa um achatador de bigodes, para deixá-los parecidos com um guidão de bicicleta (ok, Salvador Dalí também fazia isso; mas quem pode argumentar com Dalí diante de um tamanho sinal de esquisitice?). O fato é que Poirot é um estranho no mundo britânico mas seu raciocínio lógico tem, claramente, inspiração no Mr. Dupin, criado por Edgar Allan Poe.
O belga está presente na maioria dos livros já relançados com o novo visual, que inclui a assinatura da autora em relevo sobre as capas (cujo fundo é, invariavelmente, uma foto). Um deles, A Casa do Penhasco, é apresentado assim: Acidente número um: o quadro pesado que despenca na cama de miss Buckley; acidente número dois: a pedra grande que se solta perto dela, numa trilha do penhasco; acidente número três: os freios do carro que falham numa encosta íngreme; acidente número quatro: a bala que por um triz não lhe atinge a cabeça. Mas, finalmente, o agressor desconhecido comete um erro fatal: há uma testemunha. Hercule Poirot está em cena...
Segundo a própria autora, Poirot foi imaginado logo depois de ela esboçar os outros personagens de seu primeiro livro, O Misterioso Caso de Styles. Ela partiu em busca de alguém que pusesse ordem na trama: Quem poderia ser? Um estudante? Muito difícil! Um cientista? Que sabia eu acerca de cientistas? Lembrei-me então de nossos refugiados belgas. Havia uma colônia deles, bastante numerosos, em Tor. Agatha, então, deixou que Poirot crescesse: cresceu tanto como personagem, o homenzinho ordeiro, que, apesar da estatura baixa, recebeu o nome do herói mitológico grego reconhecido por sua imensa força.
A conservadora escritora britânica, contudo, também criou uma detetive mulher, miss Jane Marple, uma velhinha do interior da Inglaterra, já definida como uma pessoa que tem sempre a sorte ou o azar de estar perto do local onde se eliminam alguns seres humanos por inveja, cobiça, crueldade pura, cólera invencível ou instintos destrutivos incontroláveis. Marple tem horror às páginas policiais dos jornais: acha-as chocantes demais. O que conta, mais uma vez, é o raciocínio lógico tão bem apreciado pela leitora citada no início deste texto.
Excepcionalmente hoje deixamos de publicar a coluna ''Leitura'', de Marcos Losnak


