São Paulo - Pesquisadora dos limites entre sanidade e loucura em Lima Barreto, a jornalista Luciana Hidalgo recorreu à ficção para mostrar uma face menos conhecida do escritor.
Recém-lançado pela Rocco, o romance ''O Passeador'' constrói um personagem terno, puro e idealista. Ao percorrer a juventude de Lima Barreto (1881-1922), antes de ele publicar os livros que o tornariam respeitado, Hidalgo revela um homem já mordaz, mas bem mais suave que aquele da fase adulta - amargurado, belicoso e atormentado por alucinações decorrentes do álcool.
''Ele buscava a sinceridade, a verdade e a pureza. Mas, com as dificuldades e a rejeição que enfrentou, inclusive da crítica, foi se amargurando. Por isso que escrevo (no livro) que só é muito cínico quem um dia já foi muito ingênuo'', conta a autora.
Meio novela, meio romance, ''O Passeador'' agrega pitadas de história e ensaio e traz dados biográficos e trechos do diário de Lima Barreto.
O cenário é o Rio da belle époque, entre 1904 e 1905, um caótico canteiro de obras da reforma urbana do prefeito Pereira Passos.
O personagem de Lima Barreto, identificado pelo primeiro nome do escritor, Afonso, é o ''passeador'' do título, que, inconformado com a descaracterização da cidade, faz vigílias noturnas observando as alterações.
Durante o dia, divide-se entre o trabalho burocrático na Secretaria da Guerra e as idas ao sebo do livreiro português Tiago, onde trabalha a jovem Sofia, cuja origem a trama desvenda aos poucos - e com quem Afonso mantém um flerte platônico.
Nascido há 130 anos no Rio, o que justifica tantos títulos em torno dele em 2011, Lima Barreto foi um celibatário. Ia a prostíbulos, mas, recorda Hidalgo, saía enojado.
Seria Sofia um alter ego de Luciana Hidalgo? ''Tem um pouquinho, sim. A paixão pela literatura, o idealismo. Mas Sofia também é meio que um duplo feminino dele.''

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