Nos lendários pactos com o diabo, o sistema de troca é lei. O sujeito entrega a alma e recebe aquilo que mais deseja na vida. Como o capeta é um exímio negociador, também aceita em troca outros valores e quinquilharias. A certeza é que, uma hora ou outra, o demo cobrará a dívida.

Imagine um sujeito que fez um pacto como o diabo mas não se lembra do que ofereceu em troca. Com um branco na memória, ele perambula pelas décadas tentando saber o que teria oferecido ao demo. Muito mais do que aproveitar aquilo que o capeta colocou em suas mãos, sua grande preocupação é saber o que entregou ao chifrudo. Aquilo que vai perder.

Essa situação hilária é vivida pelo personagem narrador de ''Crossroads'', novo romance do escritor Furio Lonza que acaba de ser lançado pela editora 34. O próprio título do livro é o nome de um blues de Robert Johnson (1911 - 1938) - músico norte-americano que, segundo a lenda, teria feito um pacto com o diabo numa encruzilhada (''crossroad'' em inglês) para tocar o melhor dos blues.

O protagonista narrador atravessa as quatro últimas décadas (60,70, 80 e 90) disparando ironia, sarcasmo e humor ácido contra tudo e todos. Típico anti-herói, perdeu a revolução política, a musical, a profissional e a sexual. Ficou até mesmo às margens do processo que corria às margens. Por trafegar fora de tudo, consegue ler as coisas com lucidez e contestação.

Leia a crítica do jornalista Marcos Losnak

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