"Romance", o erótico e polêmico filme de Catherine Breillat, chega ao País
São Paulo, 12 (AE) - A estréia de "Romance", quinto longa-metragem da escritora e cineasta francesa Catherine Breillat, contribui para o enriquecimento de nossa percepção da sexualidade, matéria que ainda se cerca de incompreensões e constrangimentos. Vide a polêmica causada em torno da natureza dessa produção, uma das maiores bilheterias da França, neste ano. Afinal - perguntou-se -, estamos diante de um filme erótico ou pornográfico?
Por contar com sequência de sexo explícito, de oito minutos de duração, protagonizada por um astro pornô, o italiano Rocco Siffredi, houve quem tomasse o filme digno da classificação X. Outros, mais sensatos, o colocaram em seu devido lugar. Ou seja, na tradição de "A Bela da Tarde", "O Último Tango em Paris" e "O Império dos Sentidos". O filme da cineasta-cabeça Catherine Breillat não atinge a grandeza desses seus antecessores, mas merece conferência, por suas muitas qualidades.
Ao lançar "Romance", no mercado francês, a diretora lembrou ao jornal "Le Monde" que convivera, nos anos 70, com "o desejo de realizar imagens pornográficas". Isso porque acreditava ser possível "filmar pessoas fazendo amor de uma maneira humana". Só que, na época, "a lei classificava como pornô toda representação explícita do amor físico".
Na avaliação da escritora e cineasta, "a indústria pornográfica é a outra vertente da lei islâmica: uma e outra baseiam-se na idéia de que nos órgãos sexuais, principalmente no da mulher, há algo obsceno."
Foram necessárias mais duas décadas para que Catherine Breillat, hoje com 51 anos, realizasse seu desejo. Desejo que voltou, por inteiro, quando ela esteve, três anos atrás, em Teerã, participando do Congresso Internacional da Mulher. Feminista assumida, como qualquer intelectual francesa que se formou sob a influência de Simone de Beauvoir, a cineasta conseguiu realizar o mais bem-sucedido (do ponto de vista comercial) de seus filmes. Somente os mercados cinematográficos de países muçulmanos não o compraram.
Entre os melhores - Em 96, Catherine Breillat figurou, com seu quarto longa-metragem - "Parfait Amour" - na lista dos "dez melhores do ano" elaborada pela influente revista "Cahiers du Cinéma", a bíblia dos cinéfilos-cabeça. Mesmo assim, não conseguiu romper barreiras comerciais. Só um de seus filmes - o belo "Sujo como um Anjo" - chegou ao Brasil e mesmo assim a circuito reduzidíssimo.
Agora, por causa da famosa sequência de oito minutos que uniu Rocco Siffredi à protagonista absoluta do filme, a jovem Caroline Ducey, Catherine conseguiu romper o cerco e ver seu novo trabalho vendido para dezenas de países. Incluindo o Brasil.
Vale lembrar, aos que estiverem interessados num programa temperado com apimentadas cenas de sexo, que Siffredi é apenas um coadjuvante na trama. Se ocupou generosos espaços na mídia, o fez porque, no mundo do espetáculo, o inusitado sempre chama a atenção. E os predicados de Siffredi - a se acreditar no que ele propaga - são notáveis, sobretudo quando ele faz a própria descrição anatômica de seu sexo.
Só que "Romance" é, para valer, o registro da história de uma mulher, Marie (Caroline Ducey), professora rejeitada pelo marido Paul (Sagamore Stevenin). Ele, que é modelo e narcisista ao extremo, não tem nenhum interesse sexual por ela. Que, por sua vez, se sente tomada de verdadeira fúria uterina. Já que não encontra sexo com o parceiro, Marie empreende busca erótico-sentimental barra-pesada. Faz sexo com três amantes: Paolo (o astro pornô Rocco Siffredi); Robert (François Berleand)
diretor da escola onde ela trabalha, e um estuprador sem nome (o ator iraniano Reza Habouhossein). E ainda se masturba.
A sequência mais esperada do filme - o encontro de Marie e Paolo - é mais cerebral do que física. Em vez de saciar-se com o parceiro - o típico símbolo do amante sonhado por todas as mulheres -, Marie põe-se a falar compulsivamente. Quem é mulher sabe muito bem que falar (ou discutir relações) é um dos prazeres femininos. Os espectadores do sexo masculino, claro, não entendem por que a jovem gasta mais tempo falando do que realizando seu imenso desejo de sexo carnal.
Sadomasoquismo - A relação de Marie com Robert, o diretor da escola em que trabalha, é a mais envolvente do filme. Afinal, ele funciona como o mestre experiente, que a introduz na prática do sexo sadomasoquista. O que poderia soar como provocação gratuita, já que ele é um pedagogo. Um educador de escola que atende a crianças. No entanto, o personagem, que nas mãos de um diretor (ou diretora) moralista resultaria num ser execrável, ganha matiz enriquecedor. É ele que acompanha Marie no momento em que ela mais necessita de apoio (a hora do parto).
Pode-se concluir - vendo "Romance" - que, no fundo, no fundo, ele não é de todo transgressivo. Afinal, depois de experimentar os mais diversos caminhos sexuais - incluindo relação com parceiro catado na rua (um jovem iraniano e aí está a vingança de uma intelectual francesa contra o machismo da cultura muçulmana) -, Marie opta pela gravidez e pela maternidade. Essa leitura é pertinente. Mesmo as feministas mais convictas - e é o caso de Catherine, mãe de um garoto de 7 anos - ainda se debatem com a questão da maternidade.
Num dos melhores momentos do filme, a cineasta paga tributo a um dos cineastas que mais a fascinam: o canadense David Cronenberg. Marie submete-se a exame num hospital-escola. Vários estudantes de medicina, com a mão coberta por asséptica luva de plástico, exercitam-se no futuro ofício, tocando ginecologicamente a paciente. Catherine constrói sequência que tem em "Gêmeos, Mórbida Semelhança" a sua matriz.
As imagens do filme - belíssimas - são captadas pela lente do fotógrafo Yorgos Arvanitis, o mesmo de "A Eternidade e um Dia" (Theo Angelopoulos, 1998). Arvanitis consegue preencher de poesia o que poderia resultar grotesco nas cenas de sexo.
O que incomoda no filme é uma certa assepsia publicitária, presente nos ambientes, no jogo de cores (tudo começa em tons brancos, cremes e beges e progride para o vermelho e preto) e, especialmente, nos figurinos. Um pouco da sujeira da vida e das ruas só faria bem ao filme.
Serviço - "Romance". Drama erótico. Direção de Catherine Breillat. Com Caroline Ducey, Sagamore Stevenin, François Berleand, Rocco Siffredi. Duração: 95 minutos. Belas Artes-V.Lobos, Morumbi 5, Studio Alvorada 1, horário normal. Espaço Unibanco 2, em São Paulo, às 14h10, 16, 18, 20 e 22 horas. Ipiranga 2, horário normal a partir das 13h30. 18 anos. Distribuição: Pandora Filmes.





