Romance japonês mergulha na angústia da decisão entre a vida e a morte
'Uma Questão Pessoal", de Kenzaburo Oe, prêmio Nobel de Literatura de 1994, traz uma abordagem sobre uma questão delicada
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quarta-feira, 17 de junho de 2020
'Uma Questão Pessoal", de Kenzaburo Oe, prêmio Nobel de Literatura de 1994, traz uma abordagem sobre uma questão delicada
Marcos Losnak/ Especial para Folha 2 
Existem livros que oferecem aconchego. E existem livros que oferecem incômodo. “Uma Questão Pessoal”, romance do escritor japonês Kenzaburo Oe, pertence ao segundo grupo, aquele tipo de livro capaz de deixar o leitor em estado de desconforto.
Publicado pela editora Companhia das Letras, narra a história de Bird, um professor de 27 anos que sonha realizar uma viagem ao continente africano e viver grandes aventuras. Com o casamento em crise vê seu primeiro filho nascer “fora das especificações”.
A criança nasce com uma anomalia desconhecida. Parte do parte do cérebro do recém nascido cresceu fora do crânio. O diagnóstico dos médicos indica que o bebê terá poucos dias de vida. Mas há a possibilidade de uma delicada cirurgia que, se ocorrer bem, a criança sobreviverá, mas terá apenas uma vida vegetativa.

Bird entra numa espiral de negação onde a cada passo fica mais longe do entendimento. Queria apenas um filho “dentro das especificações”. Para não ter sua vida transformada, decide pela não realização da cirurgia para que a criança padeça.
Nesse processo de decisão, Bird atravessa territórios da angústia entre sua liberdade individual e o cuidado com o outro. Através da negação da situação, aposta em renegar o filho e preservar o velho sonho de um dia conhecer a África. Mas vive a sensação de estar fazendo a escolha errada, uma contradição que amplia sua angústia.
Apesar de ser uma obra incômoda, “Uma Questão Pessoal” é um romance de redenção. Em sua trajetória, o personagem percorre corredores escuros e nebulosos para vislumbrar um fiapo de luz.
Apesar de ser uma obra ficcional, “Uma Questão Pessoal” possui elementos autobiográficos. Em 1964 Kenzaburo Oe viveu a experiência de ver seu primeiro filho nascer com uma anomalia cerebral. Esse assunto também está presente em outra obra de sua autoria, “Jovens de um Novo Tempo, Despertai!”. O drama de um pai diante do filho que não nasce “dentro das especificações”. Tema semelhante ao desenvolvido pelo escritor paranaense Cristovão Tezza no romance “O Filho Eterno” (Record, 2007).
Kenzaburo Oe nasceu em 1935, no vilarejo de Ose, região de Shikoku. Com 18 anos de idade deixou sua cidade natal para estudar Literatura Francesa na Universidade de Tóquio. Em 1994 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.
Kenzaburo é considerado um dos principais pacifistas japonêses em atividade. Militante da não utilização da energia nuclear em território japonês, participou de inúmeras campanhas antinucleares. Publicou vários ensaios sobre as consequências subjetivas das bombas lançadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial.
O argumento de Oe sempre foi de que o Japão, pelo fato de ter sofrido na pele os piores efeitos da fissão nuclear, deveria ser um país capaz de abdicar o uso desse tipo de energia. Em 2011, após o desastre na Usina Nuclear de Fukushima, retomou sua militância propagando que a energia nuclear deveria ser abolida no Japão.
As tradições da cultura japonesa não ocupam lugar de destaque na literatura de Kenzaburo Oe. Seu verdadeiro interesse reside nas questões humanitárias universais. Entre suas obras publicadas no Brasil destacam-se “Gritos de Silêncio” (Francisco Alves, 1983), “Jovens de um Novo Tempo, Despertai!” (Companhia das Letras, 2006) e “14 Contos de Kenzaburo Oe” (Companhia das Letras, 2011).

Serviço:
“Uma Questão Pessoal”
Autor – Kenzaburo Oe
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Shintaro Hayashi
Páginas – 224
Quanto – R$ 52,90


