São Paulo, 03 (AE) - Quem viu as imagens do enterro de Gláuber Rocha, tal como foram transmitidas pela Globo, por certo não se esqueceu da mãe do diretor. Meio ensandecida, como uma personagem glauberiana, Lúcia Rocha gritava junto à sepultura: "Você não está descendo meu filho, você subiu." Subiu aos céus
como profeta que era, com certeza. Lúcia Rocha já foi chamada de mãe do Brasil. Talvez seja nossa encarnação da mãe coragem brechtiana. Miúda e frágil na aparência, é uma leoa quando se trata de defender o patrimônio cultural legado por seu filho. Por isso mesmo, não admira que tenha servido de inspiração para um filme e agora um livro.
Senador do PSDB pelo Distrito Federal, José Roberto Arruda escreveu "Lúcia, a Mãe de Gláuber" (Geração Editorial, 252 págs, R$ 26,00, lançamento em Brasília na quarta-feira e no Rio no dia 16) para lançar luzes sobre essa personalidade singular e também para decifrar um enigma. Por que, no auge do desespero, essa mulher sorriu no dia do enterro do filho? É um livro ao mesmo tempo delicado e trágico, surpreendente e revelador. Pode (e deve) ser lido como um romance. Lúcia Rocha teve uma vida tão intensa que mais parece uma personagem de ficção. É possível que o filho tenha colocado traços dela nas personagens femininas mais marcantes de sua carreira: a Rosa de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", a Sara de "Terra em Transe".
Antes do livro, houve um curta premiado no Festival de Gramado: "A Mãe", de Fernando Belens e Umbelino Brasil. A dupla de diretores não estabeleceu um roteiro rígido. Deixou que Lúcia improvisasse. Ela foi do riso às lágrimas. Como fio condutor, sua memória. Até como forma de sobrevivência, Lúcia consagrou-se ao exercício da memória. Seus mortos sobrevivem na lembrança, Gláuber e Anecy mais ainda, porque deixaram obra artística perene. Para a inteligência de seus filhos, sua explicação definitiva é: sopa de cabeça de peixe.
Marca do gênio - Decorridos 18 anos de sua morte (em agosto de 1981), Gláuber ainda assombra o cinema brasileiro. Mito do Cinema Novo, exerceu indiscutível liderança sobre seus colegas de geração. Nem todos os seus filmes são bons, mas em tudo o que fez deixou impressa a marca do seu gênio. Era um gênio, um visionário, um demiurgo. Sua vida e obra estão entre as mais analisadas e discutidas da história da cultura, e não só do cinema, no Brasil. Gláuber era único e múltiplo. Não poderia ser reduzido a um só livro. José Roberto Arruda admite que deve a muitos autores que se debruçaram sobre Gláuber. Ivana Bentes ("Cartas ao Mundo), Sidney Rezende ("O Ideário de Gláuber Rocha"), Orlando Senna ("Roteiros do Terceiro Mundo") e João Carlos Teixeira Gomes ("Esse Vulcão") foram fontes de pesquisas constantes.
Muito se escreveu e ainda escreve sobre ele, mas era preciso falar sobre sua mãe. Lúcia Rocha desempenhou um papel decisivo na vida de Gláuber e de toda a sua família. Foi uma segunda mãe para todos os parceiros de Gláuber na aventura do Cinema Novo. Incentivou e alimentou os sonhos mais delirantes do filho. Gastou os bens de sua abastada família para que ele fizesse cinema. A última casa deu o dinheiro para "A Idade da Terra". Como define José Roberto Arruda: contando a história de Lúcia ele conta a história do Cinema Novo do ângulo de quem fazia a feijoada.
Sacerdotiza do culto - Sua vida teria que dar mesmo um romance. Uma história de amores e perdas. O marido, Adamastor, os filhos Ana Marcelina, Anecyr (que virou Anecy ao iniciar a carreira de atriz) e Gláuber, Guilardo, que foi sua paixão, todos se foram, deixando-a sozinha. Mas Lúcia Rocha, na verdade, nunca ficou sozinha. Virou sacerdotiza do culto a Gláuber. Criou e carrega nas costas o Tempo Gláuber, espaço em Botafogo, no Rio
que guarda o acervo do artista. São 60 mil itens e documentos que preservam a memória (e a arte) do diretor. O livro é resultado de uma longa pesquisa.
Desde 1995, José Roberto Arruda frequentava o Tempo Gláuber, revisando documentos, e mantendo longos diálogos com Lúcia Rocha e todas as pessoas que podiam dar seu testemunho sobre ela e o filho. Assim foi ganhando a confiança da biografada. O livro surgiu dessa cumplicidade.
Autor do volume de contos "Nove Contos de Réis", Arruda não é um estreante em literatura. Ele define "Lúcia, a Mãe de Gláuber" como um romance nascido da emoção. Há tempos Arruda conhecia a personagem principal. Mais de dez anos. Lúcia Rocha circulava por Brasília, ia ao coração do poder toda vez que sentia o Tempo Gláuber ameaçado. O livro é dividido em capítulos, que correspondem a momentos importantes da vida da protagonista.
Por meio deles, emerge a história da menina rica de Vitória da Conquista que foi afastada pela família do seu grande amor de juventude porque ele era um boêmio, não era partido para uma moça de boa família. O primeiro capítulo, Pastor Nehemias, é centrado na figura do pastor que oficiou o culto ecumênico a Gláuber, no sétimo dia de sua morte. Nehemias é o pretexto, mas essas primeiras páginas já dão o tom do livro. Tudo passa por Lúcia, por seu olhar, sua dor, seu sofrimento, seu sorriso misterioso. O segundo capítulo é dedicado a Marcelina, contando a história da avó de Gláuber: Lúcia nasceu num parto difícil, entre tiros e sustos, no dia 16 de janeiro de 1919. Depois vêm Guilardo, sobre o primeiro amor, que Lúcia reencontrou muito tempo mais tarde e que lhe devolveu o entusiasmo de viver em plena maturidade, mas também morreu. Pela ordem, os demais capítulos: Adamastor, o marido, que sofreu um acidente e foi devolvido à família com graves distúrbios neurológicos, ficando paralítico até morrer, Ana Marcelina, a primeira filha que morreu (de leucemia, aos 11 anos), Ana Lúcia, a garota que ela adotou no papel e com ternura, na qual descobre os traços do marido, Gláuber, Anecy, a própria Lúcia e Paloma, a filha de Gláuber com Helena Inês.
Grande mulher - Histórias de gente, personagens da vida real que vão tecendo uma trama verdadeira. A própria Lúcia já disse que só não ficou louca, depois de perder os três filhos, porque se recusou a isto. José Roberto Arruda reuniu mais de 200 horas gravadas para contar sua história. Recolheu frases memoráveis, que ajudam a traçar o perfil de Lúcia. De Gláuber, disse que ele morreu de Brasil. Dela própria, que tem a idade da terra. Do marido, Adamastor, que foi seu amor. De Guilardo, que foi a paixão e a paixão, sabe-se, é mais intensa e devastadora do que o amor.
Não há fecho melhor para essa história do que o escrito por Cacá Diegues, à guisa de apresentação. Diegues, que foi parceiro de Gláuber no Cinema Novo, diz que Dona Lúcia, como a chama, respeitosamente, é um desses personagens históricos que, não tendo deixado propriamente uma obra, ajudou a construir as circunstâncias em que toda uma geração de grandes artistas se expressou por meio da música, do teatro, da poesia, da televisão e, principalmente, do cinema. "Muito já se escreveu sobre seu filho, ainda que muito falte escrever sobre ele", diz Diegues. "Agora José Roberto Arruda faz justiça ao papel histórico de dona Lúcia, num livro inteiramente dedicado a ela, à saga de uma grande mulher brasileira." Faz sentido com o que o próprio Arruda diz: por trás do gênio, há sempre uma figura humana. Por meio de dona Lúcia, a mãe, ele ilumina também o filho e conta uma parte da história política e artística do Brasil.

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