Em sintonia com sua idade, Rodrigo Maranhão, 36, já ouviu muito rock, compôs com Pedro Luís o sucesso ''Rap do Real'' e toca pop na banda Bangalafumenga. Mas, em seu primeiro disco solo, ''Bordado'', o que há é samba, ciranda, xote e baião.
''É o que eu mais gosto de fazer e são as músicas que eu tenho mais vontade de que as pessoas ouçam. Adoro música brasileira, de Luiz Gonzaga a Chico Buarque'', diz ele.
Maranhão é um exemplo talentoso do pedaço da sua geração que preferiu olhar para gêneros predominantemente brasileiros. Não por acaso, despertou a atenção de cantoras da mesma turma, como Roberta Sá, que gravou ''Olho de Boi'', e Maria Rita, intérprete de ''Caminho das Águas'' e ''Recado''.
As três canções estão em ''Bordado'' em registros bem simples, como é todo o CD - simples até na duração: menos de meia hora, mais por razões financeiras do que estéticas. O lamento sertanejo ''Olho de Boi'' vem só voz-e-violão; o samba ''Recado'' é cantado à capela; e a ciranda ''Caminho das Águas'' está rústica, com a zabumba citada na letra e sem o trio piano-baixo-bateria usado por Maria Rita.
A quem considerar postiço um carioca criar cocos e um xote tão marcadamente nordestino como ''O Osso'' - embora com letra citando Rio e Flamengo-Maranhão não argumenta com seu nome, mas com o fato de sua família ser do Rio Grande do Norte. ''Sou carioca cabeçudo'', brinca. Têm a mesma ascendência a faixa-título, ''Interior'' (a única feita com parceiro, Beto Valente) e ''Todo Dia'', um samba-de-roda acelerado e contagiante. Já ''Baião Digital'' mais brinca com o eletrônico do que o louva.
Sem ficar restrito ao Brasil, Maranhão se aproxima do tango em ''Milonga'' e dos sons de origem árabe em ''Noites do Irã'', canção de letra poética sobre fundo político feita após assistir a ''Tiros em Columbine'', de Michael Moore. ''Fiz a letra em dez, 15 minutos. Às vezes acontece'', diz.
Mas pressa não é uma marca sua. ''Bordado'' começou a ser gravado em 1999 e, por diversas razões, só concluído agora.
''Pra Tocar no Rádio'', com jeitão de samba dos anos 40 e 50, é da primeira leva e imprime a marca mais carioca nesse disco de múltiplos faces. Todas estão unificadas numa cara brasileira e no estilo de compor de Maranhão, ainda em processo de amadurecimento, mas já com uma assinatura reconhecível e de qualidade.

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