São Paulo, 24 (AE) - A ordem mondrianesca foi precedida por paisagens naturalistas de cores escuras que remetiam à pintura de Breitner e formas "impuras" posteriormente rejeitadas por Mondrian, como a diagonal. Antes do rigor neoplástico, Mondrian, que nasceu calvinista, conheceu, portanto
a desordem. O próprio termo neoplasticismo foi cunhado por um teósofo para sugerir o equilíbrio e a harmonia que o holandês deveria perseguir com três cores primárias e o cruzamento de linhas horizontais e verticais. Essa introdução é necessária para apresentar a exposição do pintor Rodrigo Andrade na Galeria Marília Razuk, antes que um desavisado visitante veja nessas telas um revival neoplástico.
Não é um revival nem a pintura de Rodrigo Andrade vive de citações. Ex-integrante do extinto Casa 7 - grupo formado por ele, Nuno Ramos, Fábio Miguez, Paulo Monteiro e Carlito Carvalhosa -, Andrade começou a pintar nos anos 80, no auge da onda neo-expressionista. Há quatro anos resolveu pesquisar a obra de Goeldi e fez uma exposição madura sobre as figuras de seu repertório. Depois disso abandonou a estrada expressionista e deu passos preliminares em direção à fronteira do construtivismo. Parou na barreira. Dois meses antes da data marcada para a exposição, resolveu abandonar o que fazia e iniciou essas experiências com retângulos e quadrados irregulares.
Haverá quem lembre que, em 1917, Mondrian também colocou retângulos de cores brilhantes numa tela branca, inserindo linhas pretas nesse território apenas para romper com sua neutralidade. Mas Rodrigo Andrade não vive a vida mondrianesca de uma ordem anterior à existência individual. Ele não faz eleição de cores, tem pouco a ver com neoplasticismo e diz que sua pintura é apenas uma solução prática para um problema metafísico. Quanto à forma, a figura geométrica apenas permite, segundo ele, "lidar com valores universais". De resto, Andrade quer apenas experimentar a idéia do espaço entre um sistema ordenador positivista e a ausência da ordem.
"Também não é uma pintura minimalista, porque rejeita a repetição de padrões", diz, apesar de sua admiração por Donald Judd e seus módulos intercambiáveis. "Ela tem um sinal negativo
é um não ao excesso na pintura", justifica, afirmando sua intenção de "fugir da retórica pictórica". Paradoxalmente, Andrade faz isso por acúmulo. De tinta. As figuras geométricas irregulares são tabletes de tinta cuja expansão é contida por uma fôrma. Não há mais sinal de traço na tela, mas, de alguma forma, é possível atestar que as telas de Rodrigo Andrade fazem conviver a imutável base geométrica com a instabilidade rítmica das cores e o contraponto de um fundo ascético que revela a intuição gráfica desse pintor, um artista que respondeu pelas capas da revista Veja nos últimos sete anos. Serviço - Rodrigo Andrade. De segunda a sexta, das 10h30 às 19 horas; sábado, até 13 horas. Marília Razuk Galeria de Arte. Avenida 9 de Julho, 5.719, tel. 881-9853. Até 22/12. Abertura amanhã (25), às 19 horas

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