Contando a história da vida de uma das maiores personalidades da música francesa, o filme ''Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres'' - a estreia dessa semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - é uma cinebiografia incomum, que tem sucesso em transitar entre várias épocas da vida de Serge Gainsbourg ao mesmo tempo em que apresenta os conflitos do personagem, através de uma mistura entre a realidade e a imaginação desvairada. Essa forma de narrativa, que causa estranheza no início da projeção, acaba por desenhar traços que revelam, de maneira incomum e emocionante, a fonte da genialidade criativa de Gainsbourg.
Logo na primeira cena do filme, somos apresentados ao menino Lucien Gizbourg (interpretado pelo ótimo Kacey Mottet-Klein) fumando pela primeira vez um cigarro, aos dez anos. O jovem, tímido e franzino, cresce em meio a vários conflitos, perdido entre a rigidez metódica de seu pai - que queria lhe ensinar o piano clássico - e sua condição de ser um garoto judeu vivendo no período da ocupação da Alemanha Nazista em Paris. Usando a arte como válvula de escape, o pequeno Lucien cria personagens imaginários e sonha em, um dia, ser um grande pintor. Nesse período, também somos apresentados ao seu alter-ego dionisíaco; um ser monstruoso, de feições exageradas, que vai aconselhar o personagem durante o resto da sua vida (interpretado digitalmente por Doug Jones).
Com o protagonista rabiscando os seus desenhos em um momento de solidão, somos transportados, através de um belíssimo lapso temporal - musicado com as palavras de um poema de Baudelaire - à fase adulta de Lucien, pouco antes dele assumir sua identidade como Sergei Gainsbourg (Eric Elmosnino), e o roteiro tem sucesso em acompanhar o amadurecimento do personagem entre a rica diversidade cultural da vida boêmia da capital francesa. O diretor, Joann Sfar, é primoroso na composição de cores e na retratação do ambiente que marcou a cidade de Paris dos anos 1970/1980.
O protagonista também faz jus à fama de ser um exímio conquistador e, durante os períodos retratados no longa, acompanhamos os seus relacionamentos amorosos marcantes com Juliette Greco (Anna Mouglalis), France Gall (Sara Forestier), Jane Birkin (Lucy Gordon) e o caso com a então recém-casada Brigitte Bardot (Laetitia Casta), musa inspiradora para quem Gainsbourg compôs sua mais famosa música, a escandalosa ''Je T'Aime ... Moi Non Plus''. O elenco feminino do filme é um espetáculo à parte, e provavelmente constitui a mais bela seleção de mulheres que já estiveram juntas na mesma tela.
Bem conduzido, o clima de 'conto de fadas' não desvia a atenção das falhas de personalidade de Gainsbourg, e todos os reflexos causados pelo abuso de álcool e de cigarros ficam evidentes na trajetória do polêmico compositor, dono de uma personalidade imprevisível e explosiva. Depois de sofrer uma parada cardíaca, os jornalistas perguntam quais serão os cuidados que o músico vai tomar para cuidar de sua saúde, ele responde, acendendo um cigarro: ''vou aumentar minhas doses de álcool e de tabaco''. Ces't Rock and Roll, mon amie.

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