Rock revisitado em quadrinhos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Um dos aspectos fascinantes no rock'n'roll é notar o impacto de sua característica sempre questionadora a cada nova geração de adoradores de guitarras. O rock de cada período específico precisa fazer sentido para sua prole, que naturalmente vai negar a anterior e ser ultrapassada pela seguinte. Esse constante movimento de fluxo e refluxo pode ser contemplado com muita facilidade e humor em ''O Pequeno Livro do Rock'', do francês Hervé Bourhis, lançado no Brasil pela Conrad Editora.
Assim como todo bom amante da música, e em especial de rock, o conteúdo vai de encontro com as experiências e, principalmente, a memória afetiva do autor, um cara de 35 anos que simplesmente resolveu juntar tudo o que conhecia com as coisas que viveu e ouviu.
''Eu jamais tive uma overdose. Não vi os Sex Pistols no Chalet du Lac (...). Não tenho vontade de ser completo, objetivo ou boa-fé. Em suma, não tenho nenhuma legitimidade para escrever este livro, e foi por todas essas razões que eu mesmo assim o escrevi.'' É assim, de forma debochada e despretensiosa, que deve ser ''levado a sério'' esse livro. Uma maneira deliciosa de ver (e rever) tudo aquilo que os roqueiros e simpatizantes colecionaram nas memórias durante esses anos todos.
Tudo começa em 1915, com o lançamento do primeiro jukebox de discos. Tem de tudo um pouco, curiosidades, boatos e comentários espirituosos, a exemplo de como Hervé narra o luto de Nashville. ''Hira Williams (mais conhecido como Hank Williams) está morto. Foi encontrado rígido no banco de trás de seu Cadillac. Por respeito à sua família, não contaremos... que encontramos no sangue do deus do country... bourbon, morfina e anfetaminas.''
O estilo de Hervé vai de encontro com a tradição dos belgas e franceses, do quadrinho europeu em geral, que destaca bastante a arte-final. Aqui ele usa muito o pincel e as retículas em cinza. O nanquim grosso ajuda a enfatizar seus pequenos quadros com closes dos artistas e momentos ''retratados'' no livro.
A edição também traz um apêndice bem interessante, com o rol de todos os artistas citados, assim como as famosas ''listinhas'' que todo mundo tem: ''5 discos dos que eu gosto, mas tenho vergonha'', ''5 artistas que eu não entendo'', ''Álbum que eu mais odeio'', entre outras. Tem também uma grande sacada de Hervé para lidar com os chatos de plantão que vão sempre procurar (e reclamar) de alguém ausente no livro: uma carta de um leitor indignado com o ''esquecimento'' de alguns artistas.
A Conrad acertadamente publicou o livro por aqui em um formato ligeiramente maior. O original emula um EP, com de 45 RPM, com 17 cm de diâmetro. No Brasil, saiu com 5 cm a mais, para privilegiar a visualização.
Café Espacial - O que parecia apenas uma promessa de uma interessante nova revista com mix de quadrinhos concretizou-se em uma boa leitura periódica. O sexto número da ''Café Espacial'', tocado pelo editor Sérgio Chaves, ao lado da jornalista Lídia Basoli, provou que veio pra ficar. Nesta edição, a publicação traz colaborações de nomes conhecidos no cenário paranaense, como os quadrinistas DW Ribatski e Guilherme Caldas.
Aliás, é de DW a melhor história da edição. O autor recupera da antologia ''Oficina do Diabo'' a curta ''Com Ácido de Bateria nos Dentes'', cheia de diálogos espertos e um ''mau humor bem-humorado''. DW gosta de brincar com pincéis e as possibilidades do contraste, o que dá extrema fluidez a sua bela narrativa, cheia de recursos ''silenciosos'' - ou seja, o quadrinista utiliza bem os espaços em branco na diagramação.
Os quadrinhos de Guilherme Caldas, Olavo Rocha e Allan Ledo também são destaque. A publicação, que desta vez usa um papel opaco mais adequado às histórias em preto-e-branco, também conta com resenhas de livros, fotografias de Laura Gattaz, comentários sobre cinema e tevê, entrevista com banda... Enfim, uma interessante mistura.
Serviço - ''O Pequeno Livro do Rock'' tem 224 páginas no formato 21,5 x 22 cm, com capa vermelha e interior em preto-e-branco e custa R$ 39,90. Já a Café Espacial nº 6 tem 60 páginas no formato 14 x 21 cm, com capa colorida e interior em preto-e-branco e sai por R$ 6.


