Nelson Sato
De Londrina
No país das cantoras, coube aos compositores registrarem as abordagens mais sutis do universo feminino – como estão aí para provar, na MPB, as letras de Chico Buarque.
Mas no mundo pop, onde o chauvinismo é regra, algumas garotas começam a chacoalhar o ambiente com guitarras e temáticas próprias. A fração mais radical adota a cartilha do movimento norte-americano ‘‘riot grrrl’’, seja na defesa do direito ao aborto ou atacando a homofobia e a violência contra a mulher e o animais.
Outras meninas, já no mainstream, mancham os versos de batom sem levantar bandeiras. É o caso da banda Penélope, de Salvador (BA), que faz sua estréia fonográfica com o CD Mi Casa, Su Casa. O grupo é formado por Érika Martins (voz e guitarra), Erika Nande (baixo), Constança (flauta e teclado), Luisão (guitarra e violão) e Mário (bateria).
Apesar dos dois rapazes, trata-se de um grupo ‘‘de garotas’’. ‘‘Vou Desmanchar a Minha Saia’’, diz o verso da canção-título. ‘‘Meu vestido esvoaçante tem um corte’’, cantam elas em Circo. ‘‘E eu não sei se vou namorar / Hoje estou rubra abaixo da cintura / Tudo me enche a cabeça’’, revelam em Naqueles Dias.
Penélope chamava-se Penélope Charmosa até o começo desse ano. A exemplo do Jota Quest (ex-J.Quest) mudou o nome para evitar problemas com o personagem homônimo de Hanna Barbera. Tocam pop bubblegum, melodioso e ruidoso ao mesmo tempo. Flauta e vocais adocicados de um lado, guitarras sujas de outro. Ecos de rock oitentista e ciscos de power pop de bandas como Red Kross e Teenage Fanclub também alimentam as composições.
As canções parecem feitas para manhãs preguiçosas de domingo. Em ‘‘Jr.’’, anotam: ‘‘é impossível viver com você atrás / Vê se larga o meu pé e me deixa em paz / E o novelo de lã que eu te dei pra brincar? / Jr., não pega mais a sandália do meu pai! / Você chora à noite, pedindo mais Whiskas e zázz! / Derruba o aquário e o meu peixinho se vai / Não arranha a vidraça pra chamar atenção / Jr., fica calado e ao invés de Whiskas terá salmão.’’
O elenco de referências da banda é tão vasto quanto díspare. A new wave de Júlio Barroso e sua Gang 90 é homenageada com citações em ‘‘Holiday’’. Tom Zé é revisitado em ‘‘Namorinho de Portão’’. Eumir Deodato assina os arranjos orquestrais de ‘‘O Ponto’’, a melhor faixa do CD. Os escorregões ficam por conta de ‘‘Circo’’, recheada de rimas primárias, e ‘‘1/2’’, que aplica mal as lições da eletrônica soando postiça como música para pistas.
Penélope nasceu como um projeto acústico em 95. Da formação original, sobraram Érika Martins e Constança. Quatro garotas já entraram e saíram da banda. Primeiro lançaram a demo-tape ‘‘Pinkploc’’, depois participaram da coletânea ‘‘Umdabahia’’, para em seguida se consagrar em Recife no festival Abril Pro Rock de 97.
Contratadas pela Sony Music, entraram imediatamente no estúdio para gravar Mi Casa, Su Casa. O disco, que está chegando só agora ao mercado, ficou pronto há 1 ano e meio. Nesse tempo de geladeira, as meninas participaram do CD 5 anos de Chaos ao lado de outros grupos que pertencem ao cast da divisão pop/rock da poderosa gravadora. A coletânea comemorava o aniversário da Chaos. Penélope entrou com uma cover de ‘‘Tão Seu’’, do Skank. É a canção que fecha este álbum de estréia num registro ao vivo da festa.

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