Rock lado B
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terça-feira, 20 de maio de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
As grandes lojas andam, relativamente, bem abastecidas no Brasil. Aos poucos, a defasagem entre o que sai lá fora e aqui vai sendo diminuída pelas edições nacionais. Bandas do badalado ''novo rock'' norte-americano já congestionam a agenda de lançamentos das gravadoras.
O álbum de estréia do trio Yeah Yeah Yeahs, por exemplo, tem previsão de sair ainda este mês no País. Já o disco do comentado Electric Six deve chegar às prateleiras locais em julho. Da fornada recente de títulos, alguns CDs mereceram taxas mais elevadas de expectativas entre os fãs, graças ao fato de trazerem os novos repertórios de nomes ilustres do rock alternativo internacional.
''Think Tank'' (EMI) mostra a nova fase do Blur. ''Universal Truths and Cycles'' (Trama) revela um retorno aos velhos tempos do Guided By Voices. E ''Pig Lib'' (Trama) reitera a sonoridade preguiçosa de Stephen Malkmus, desta vez assumindo oficialmente a companhia da banda The Jicks. O primeiro CD do lote parece flagrar uma etapa de transição de um dos grupos mais queridos da Inglaterra.
''Think Tank'' encerrou um período de quatro anos longe dos estúdios. É o sétimo álbum da banda. É o primeiro trabalho de Damon Albarn e cia. sem a presença do guitarrista Graham Coxon, que deixou os colegas na mão durante as sessões iniciais de gravação. No disco, ele só aparece em ''Battery in Your Leg'', a última faixa. Quem tocou em seu lugar foi o próprio Damon, uma surpresa para quem achava que seu talento se resumia a compor e cantar.
Ao cair fora, Coxon abriu o bico: ''É um disco tecnozóide'' disparou em algumas entrevistas à imprensa londrina. Tecnozóide, mais ou menos. Embora o material contenha batidas programadas e efeitos eletrônicos os mais diversos, além da colaboração dos produtores Norman Cook e William Orbit, apresenta outras texturas e influências incluindo arranjos instrumentais bastante exóticos para os padrões do britpop.
A faixa ''Out of Time'', por exemplo, é pontuada por sons de cítara e cordas manejadas por uma tal Orquestra Regional de Marrakech. Foi em Marrakech, aliás, que as canções foram gravadas. A experiência ''excêntrica'' saiu da cabeça de Damon, que já havia trabalhado com músicos de Mali (África) na temporada anterior e anda cada vez mais mergulhado na idéia de misturar as culturas do Ocidente e o Oriente.
Há poucos dias, declarou que planeja gravar o próximo álbum no Iraque. ''Think Tank'' é a primeira tentativa de materializar em música o projeto. Seu repertório soa excessivamente heterogêneo, apontando para várias direções. O rock de guitarradas sujas aparece apenas em ''Crazy Beat'' e ''We've Got a File on You''. O baladismo romântico desponta em ''Sweet Song'' e ''Good Song''. A black music é esboçada em ''Brothers and Sisters'', tornando a banda irreconhecível.
O grande destaque fica por conta de ''Moroccan Peoples Revolutionary Bowls Club'', canção que privilegia o ritmo costurando com coesão os metais, a linha do baixo e os riffs de guitarra. O CD reúne 13 faixas. Damon, Alex James (baixo) e Dave Rowntree (bateria) têm outras 14 prontas, algumas previstas para entrar nos singles promocionais do álbum. A turnê norte-americana do disco começa no próximo sábado desembocando em Vancouver, no Canadá. O guitarrista da excursão será Simon Tong, ex-Verve.
Também expoente do indie rock dos anos 90, o Guided By Voices é outro que desembarca nas lojas do País. Seu álbum ''Universal Truth And Cycles'' retoma a estética lo-fi (baixa fidelidade) que garantiu reputação de herói alternativo a Robert Pollard, o líder do grupo. Com 20 faixas de curta duração, o disco vacila entre canções de apelo pop bem-sucedidas (''Zap'', ''Cheyene'' e ''The Pipe Dreams of Instant Prince Whippit''), psicodelia de garagem (''From a Voice Plantation'') e um rosário de composições anêmicas que apenas macula o currículo da banda.
Stephen Malkmus, outro ícone da cena independente americana, também desaponta na maior parte das faixas de ''Pig Lib'', seu novo e segundo álbum. Sonolento, ele parece ter eclipsado o brio do começo dos anos 90, quando arrancava notas displicentes de sua guitarra à frente do Pavement. No CD, desta vez estampando o nome do grupo The Jicks na capa, oferece apenas três canções capazes de empolgar os antigos fãs ''Ramp of Death'', ''Vanessa From Queens'' e ''Animal Midnight''. As restantes sugerem conversão hesitante ao folk. O rock lado B, amigos, anda desbotado nesta temporada.


