Rock instrumental brasileiro
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de maio de 2002
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
O gênero é tema do livro de Laércio Pacheco Martins. O volume, em formato de enciclopédia, reúne informações e discografias sobre mais de 400 bandas e artistas
Nada mais raro do que encontrar bandas de rock instrumental disparando riffs e solos por aí. A londrinense Búfalos DAgua e a paulistana Sala Especial são exceções num gênero que, em escala progressiva, passou a privilegiar os vocais abolindo o virtuosismo dos músicos.
No Brasil, os conjuntos (como eram chamados na época) instrumentais tiveram seu apogeu nos anos 60 e 70, como no resto do mundo. Hoje relegados à poeira de velhos vinis, fazem parte de uma história obscura e cujo ponto de partida para futuros pesquisadores pode ser o livro O Rock and Roll Origem, Mitos e o Rock Instrumental no Brasil e em Outros Países, do carioca Laércio Pacheco Martins.
O livro é um lançamento independente, sem apoio de editora. Chega aos leitores em formato de enciclopédia reunindo mais de 400 verbetes de grupos e artistas de rock instrumental. Sem intenções ensaísticas, trata-se basicamente de um guia discográfico, com suas eventuais curiosidades pitorescas. Laércio resgata do ostracismo a banda paulistana The Avalons, formada em 1959 e precursora do gênero no país.
O Paraná aparece aqui e ali ao longo das páginas. Grupos como The Tigers, Os Bandeirantes e The Bad Boys são lembrados por figurarem em LPs gravados como prêmio pela participação nas edições do Festival de Iê Iê Iê, em cidades como Maringá e Bandeirantes, no final dos anos 60. Entre os nomes famosos (ou de relativo prestígio) catalogados constam Pepeu Gomes, Robertinho do Recife, Os Incríveis, Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, The Jet Blacks, The Pops, The Jordans, Lafayette, Ed Lincoln, Bola Sete, Os Carbonos, The Fevers e Luizinho e seus Dinamites.
Organizado em ordem alfabética, a compilação de dados é precedida por três capítulos introdutórios. O primeiro, dedicado às origens e aos mitos do rocknroll, mapeia os principais sucessos dos pioneiros mundiais do gênero além de listar os nomes mais representativos dos anos 60, 70 e 80. O segundo capítulo aborda o rock no Brasil, destacando os expoentes da Jovem Guarda e do rock progressivo.
O terceiro capítulo, por fim, trata do rock instrumental propriamente dito assinalando seus primórdios nos Estados Unidos com os grupos The Ventures e The Shadows, cujas trajetórias e discografias são registradas ao final do volume junto com uma panorâmica do rock instrumental em países da América do Sul. Das 300 páginas do livro, 176 catalogam os grupos e os músicos brasileiros incluindo suas respectivas discografias e algumas ilustrações com as capas de seus discos.
A tentativa é abranger 5 décadas de rock instrumental verde-amarelo. Mas como toda obra de amplitude, esta também apresenta deslizes. Para ficar nas bandas contemporâneas citadas acima, se a londrinense Búfalos DÁgua foi lembrada, o mesmo não ocorreu com a paulistana Sala Especial. Búfalos toca surf music. O Sala toca pop lounge, totalmente influenciado pelo tecladista Lafayette, que ganha nove páginas no volume.
A inclusão da banda carioca Autoramas também deixa o leitor confuso. Apenas duas músicas instrumentais com solos de guitarra no gênero surf music são apresentadas no CD, anota o autor após uma breve apresentação do grupo. Ora, se a gravação de apenas duas músicas foi suficiente para ser catalogado no volume, há uma flagrante imprecisão na proposta do livro.
Quantas bandas (dezenas? centenas?) lançam discos assim com duas ou três faixas instrumentais no mercado? No caso, deveriam também ser incluídas mas acabaram ficando de fora. A propósito, o que o grupo paulistanao Joelho de Porco está fazendo no livro? Não há uma vagueza de critérios aí? Escorregões à parte, o livro tem o mérito de ser o primeiro levantamento do gênero no país resgastando artistas, grupos e discos do fundo do baú. Interessados devem enviar e-mails para [email protected].


