O gênero é tema do livro de Laércio Pacheco Martins. O volume, em formato de enciclopédia, reúne informações e discografias sobre mais de 400 bandas e artistas
Nada mais raro do que encontrar bandas de rock instrumental disparando riffs e solos por aí. A londrinense Búfalos D’Agua e a paulistana Sala Especial são exceções num gênero que, em escala progressiva, passou a privilegiar os vocais abolindo o virtuosismo dos músicos.
No Brasil, os conjuntos (como eram chamados na época) instrumentais tiveram seu apogeu nos anos 60 e 70, como no resto do mundo. Hoje relegados à poeira de velhos vinis, fazem parte de uma história obscura e cujo ponto de partida para futuros pesquisadores pode ser o livro ‘‘O Rock and Roll – Origem, Mitos e o Rock Instrumental no Brasil e em Outros Países’’, do carioca Laércio Pacheco Martins.
O livro é um lançamento independente, sem apoio de editora. Chega aos leitores em formato de enciclopédia reunindo mais de 400 verbetes de grupos e artistas de rock instrumental. Sem intenções ensaísticas, trata-se basicamente de um guia discográfico, com suas eventuais curiosidades pitorescas. Laércio resgata do ostracismo a banda paulistana The Avalons, formada em 1959 e precursora do gênero no país.
O Paraná aparece aqui e ali ao longo das páginas. Grupos como The Tigers, Os Bandeirantes e The Bad Boys são lembrados por figurarem em LPs gravados como prêmio pela participação nas edições do ‘‘Festival de Iê Iê I꒒, em cidades como Maringá e Bandeirantes, no final dos anos 60. Entre os nomes famosos (ou de relativo prestígio) catalogados constam Pepeu Gomes, Robertinho do Recife, Os Incríveis, Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, The Jet Black’s, The Pop’s, The Jordans, Lafayette, Ed Lincoln, Bola Sete, Os Carbonos, The Fevers e Luizinho e seus Dinamites.
Organizado em ordem alfabética, a compilação de dados é precedida por três capítulos introdutórios. O primeiro, dedicado às origens e aos mitos do rock’n’roll, mapeia os principais sucessos dos pioneiros mundiais do gênero além de listar os nomes mais representativos dos anos 60, 70 e 80. O segundo capítulo aborda o rock no Brasil, destacando os expoentes da Jovem Guarda e do rock progressivo.
O terceiro capítulo, por fim, trata do rock instrumental propriamente dito assinalando seus primórdios nos Estados Unidos com os grupos The Ventures e The Shadows, cujas trajetórias e discografias são registradas ao final do volume junto com uma panorâmica do rock instrumental em países da América do Sul. Das 300 páginas do livro, 176 catalogam os grupos e os músicos brasileiros incluindo suas respectivas discografias e algumas ilustrações com as capas de seus discos.
A tentativa é abranger 5 décadas de rock instrumental verde-amarelo. Mas como toda obra de amplitude, esta também apresenta deslizes. Para ficar nas bandas contemporâneas citadas acima, se a londrinense Búfalos D’Água foi lembrada, o mesmo não ocorreu com a paulistana Sala Especial. Búfalos toca surf music. O Sala toca pop lounge, totalmente influenciado pelo tecladista Lafayette, que ganha nove páginas no volume.
A inclusão da banda carioca Autoramas também deixa o leitor confuso. ‘‘Apenas duas músicas instrumentais com solos de guitarra no gênero surf music são apresentadas no CD’’, anota o autor após uma breve apresentação do grupo. Ora, se a gravação de ‘‘apenas duas músicas’’ foi suficiente para ser catalogado no volume, há uma flagrante imprecisão na proposta do livro.
Quantas bandas (dezenas? centenas?) lançam discos assim – com duas ou três faixas instrumentais – no mercado? No caso, deveriam também ser incluídas mas acabaram ficando de fora. A propósito, o que o grupo paulistanao Joelho de Porco está fazendo no livro? Não há uma vagueza de critérios aí? Escorregões à parte, o livro tem o mérito de ser o primeiro levantamento do gênero no país resgastando artistas, grupos e discos do fundo do baú. Interessados devem enviar e-mails para [email protected].

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