Rock feito em casa
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sábado, 06 de dezembro de 1997
Ranulfo Pedreiro Londrina 
ReproduçãoInovadoresAlém de ser o primeiro grupo de rock a gravar um disco na cidade, Os Falcões tinham duas mulheres na bandaO conjunto tocava num programa de auditório de domingo na Rádio Londrina. Era meados da década de 60. De repente, se aproximou um sujeito alto, todo de preto, com uma jaqueta de couro e cara de mau. Meio sem jeito, ele revelou suas pretensões:
- Oi, eu sou o Erasmo Carlos e estou querendo divulgar meu disco por aqui. Será que dava para vocês me acompanharem?
A dúvida pairou sobre o grupo. O sujeito se dizia parceiro de Roberto Carlos, que começava a fazer sucesso. Enfim, o grupo ensaiou com o futuro Tremendão e o cantor conseguiu se apresentar nas rádios londrinenses.
Quem se lembra da história é Ariovaldo Santos, o Vadinho, baterista pioneiro do rock londrinense, que passou por grupos como Os Inajás, The Brights, Os Falcões e Somos Cinco. Com Os Falcões chegou a gravar um disco, o primeiro álbum de um grupo de rock londrinense. O lançamento foi há 30 anos, pouco depois do rock cavar seu espaço na cidade.
O ritmo até aparecia na programação das rádios, eventualmente, entre boleros, canções rancheiras e sambas. Até que, por volta de 60, Elias Marçal voltou de uma viagem a São Paulo carregando discos de Elvis Presley, Paul Anka e Chubby Checker, entre outros.
O pacote interessou ao radialista Jurandir Panza. Ele me perguntou se era aquilo que estava fazendo sucesso em São Paulo, e eu respondi que sim. Então ele resolveu produzir um programa só de rock, lembra Elias Marçal, hoje funcionário público.
ReproduçãoRadicaisOs Pops diferenciavam-se dos outros grupos da cidade, faziam rock mais pesado e menos comercial
Foi então que surgiu o primeiro programa dedicado ao rock na cidade, que posteriormente se chamaria Festival de Rock. Um programa desses com uma hora de duração em Londrina era um achado na época, e teve bastante impacto. O Panza trouxe uma linguagem descontraída, que o diferenciava do formalismo da época, assegura Ricardo Abe, jornalista e pesquisador da cultura pop em Londrina.
O programa de Jurandir Panza começou a reunir os iniciados em rock, que se encontravam em bailinhos e concursos pela cidade. A agitação era tanta que, em 1961, Elias Marçal foi eleito o Rei do Rock de Londrina, coroado durante uma festa por Celly Campello.
Tudo isso aconteceu antes que a beatlemania chegasse à cidade. Já em 1964 as músicas do quarteto inglês começavam a pipocar nas rádios londrinenses, e uma outra geração de rockeiros invadiu a pista. Desta vez, armada com guitarras elétricas.
Em março de 1965 foi exibido Os Reis do Iê Iê Iê no Cine Augustus. O filme dava a receita: para se fazer rock não era necessário uma orquestra inteira, como acontecia com Elvis Presley. Bastavam duas guitarras, um baixo e uma bateria, explica Abe.
A febre tomou conta da cidade, e um grupo de música regional chamado Os Inajás começou a tocar, eventualmente, Beatles. Mas os violões acústicos, companheiros de serestas, não se encaixavam na nova onda. Faltavam guitarras elétricas. Sem dinheiro para adquiri-las, o grupo optou por construir seus próprios instrumentos.
Eles fabricaram as guitarras no fundo do quintal, e eu tive a sorte de ganhar uma bateria. Como não conseguimos fazer um contrabaixo, tocávamos com duas guitarras e uma bateria, recorda-se Ariovaldo Santos. As apresentações tinham direito a cabelos compridos, botas e calças justas.
Os grupos começaram a se espalhar pela cidade: Os Rebeldes, The Brights e The Four Falcons faziam sucesso na região. Do The Brights fazia parte Luís Antônio Stinghen, irmão do goleiro Ado. The Four Falcons tornou-se Os Cinco Falcões e, posteriormente, Os Falcões, e se destacava por ter uma infra-estrutura financeira que os outros grupos não tinham, além de reunir duas mulheres: as irmãs Rose e Sônia Lombardo. Os Rebeldes faziam rock instrumental.
Nessa época também era comum encontrar em Londrina nomes que posteriormente fizeram sucesso na Jovem Guarda. Como o sistema de divulgação de discos ainda era incipiente, os próprios compositores ou intérpretes se incumbiam de mostrar o trabalho. Eles chegavam na cidade e convidavam um grupo local para acompanhá-los. Pelas rádios e palcos de Londrina passaram Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléa, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Demétrius, Sérgio Reis e muitos outros.
AlternativosUm dos primeiros grupos a tentar uma linha alternativa, Os Pops surgiram em 1966. Eles fugiam um pouco do comercial, faziam um rock mais pesado, que aos poucos foi se radicalizando, comenta Ricardo Abe. Os Pops se tornaram Os Eles em 1967 e, em 68, desaguaram no Vupt Shoo, que já trazia influências de Jimi Hendrix e Frank Zappa.
Além dos grupos, os locutores de rádio eram extremamente populares. Oswaldo Diniz comandava Brotos Somente Brotos; Álvaro Dias, É uma Brasa; José Makiolke, Festa de Brotos; Luciano Musseti, Músicas para a Juventude e Célio Alves, Juventude em Brasa. A Jovem Guarda tomou vulto com o programa Ala Jovem, comandado por Oswaldo Diniz na TV Coroados, a partir de 67.
Um dos apresentadores de rádio mais populares era Célio Alves, que introduziu gírias e comportamentos. Embalado ao som de Roberto Carlos, Eduardo Araújo e Ronnie Cord, entre outros, Alves apresentava o Juventude em Brasa com uma espontaneidade que arrebanhava fãs.
Ele era um ídolo, fazia tiradas inteligentes e estava bem informado sobre o que acontecia em São Paulo e Rio de Janeiro, revela Adonai Alves, irmão de Célio. Entre as irreverências do radialista, constava pintar o cabelo de verde. As atitudes de Célio resultavam em certas lendas: diziam que, quando andava, sua sombra o seguia um minuto atrás. O sucesso do Juventude em Brasa durou até dezembro de 69, quando Célio Alves morreu de forma trágica.
Foi em 1967 que Os Falcões venceram o Festival do Iê Iê Iê, realizado pela gravadora Chantecler, em Bandeirantes. Os vitoriosos tiveram direito a incluir quatro faixas no disco do festival e a se apresentar durante sete dias na boate Bico Dourado, em São Paulo. As músicas do disco eram: Winchester Cathedral, Bus Stop, The More I See You e Namorada de um Amigo Meu, segundo Ariovaldo Santos.
O sucesso foi tanto que o grupo chegou a ter duas Kombis e 19 tipos de uniformes, que variavam conforme a apresentação. Quando Os Falcões voltaram a Londrina, apresentaram o disco em um baile no Grêmio e venderam, em uma noite, 3.500 cópias. O grupo era tão popular que, nesse período, a Folha destacou um repórter para acompanhá-los e registrar os shows.
Foi uma época de muita diversão, bailinhos, paqueras e bebidas leves. Os rapazes usavam calça justa, boca-de-sino, camisão largo colorido, cintos com grandes fivelas, botas e cabelo comprido. Uma das grandes modas da época era o anel Brucutu, feito com esguicho de limpador de pára-brisas de automóveis, lançado por Roberto Carlos junto com a música homônima, recorda Adonai Alves.
UniversitáriosO ano de 1967 também marcou uma mudança no rock londrinense. A beatlemania já estava mais contida, principalmente com os rumos que o quarteto tomou com o lançamento do álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Muitos grupos acabaram, como Os Brights, e outros seguiram uma tendência mais voltada a bailes, como Os Falcões e Somos Cinco, que surgiria posteriormente.
Já em 68 boa parte das bandas tinha acabado, e também já havia a corrente universitária na música. O conceito mudou e o rock já não era só modismo. Os grupos faziam protestos lá fora e essa carga foi encaixada aqui, explica Abe. A ingenuidade dos primeiros anos do rock londrinense acabara, e já começava a se configurar a corrente musical que revelaria nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e Robinson Borba.
Foi um período muito bom, eu sinto muita saudade. Até hoje, quando surge um baile no estilo dos anos 60 eu e minha esposa damos um show de dança, relembra com humor Elias Marçal. Saudades que terá chance de matar, de hoje até o dia 13, quando o Projeto Ala Jovem 2 reunirá uma série de shows no Zaqueu de Melo, com quatro gerações do rock londrinense, para comemorar os 30 anos do disco dOs Falcões e resgatar a história do ritmo na cidade.


