ReproduçãoRolling Stones: músicas que se adaptam à performance nos palcosHá vários discos contidos em ‘‘Bridges to Babylon’’, o novo CD dos Rolling Stones, lançamento EMI que está chegando às lojas nesta semana. Como se estivessem fazendo um inventário dos estilos de música de origem negra populares depois dos anos 60, os astros aproximam-se explicitamente - sem abandonar o rock feérico de sua marca registrada - de batidas dançantes, do reggae, do blues, do spiritual. As duas últimas faixas, cantadas por Keith Richards (e sem qualquer participação de Mick Jagger, que reina absoluto nas outras 11 músicas), são exemplares das duas últimas modalidades citadas.
O disco é bom como um disco dos Stones é sempre bom. Começa com um rock furioso, com guitarras distorcidas à moda dos anos 60 (em verdade à moda que era moda antes dos Stones) e parece ter sido composto especialmente para que Mick Jagger brilhe com ela em palcos. Como ‘‘Bridges to Babylon’’ é um composto disco-turnê, não é improvável que isso tenha sido pensado. Jagger canta a linha melódica da densa faixa seguinte, ‘Anybody Seen my Baby?’’, num uníssono com o baixo. Um coro quase solene (e cordas sintetizadas) definem o refrão. Jagger cita alguns tiques vocais do beatle John Lennon.
‘‘Already over me’’ lembra Bowie. ‘‘Low Down’’ é um rock tipicamente stoniano, Gunface remete a Michael Jackson, no tônus picado, canto soluçado; ‘‘You Don’t Have to Mean It’’ é reggae com metais cucarachos de anedota. Jagger canta como Bob Marley, ou Jimmy Cliff.
No baladão pesado ‘‘Out of Control’’, a linha percussiva remete às experiências de fusão latino-roqueira levadas a cabo por Carlos Santana, no fim dos anos 60. A profana ‘‘Saint of Me’’ não poderia ser mais Rolling Stones. Remete, pela temática e também por certas características melódicas e rítmicas, à grande obra profana deles mesmos, ‘‘Simpathy for the Devil’’, sem a mesma pompa, entretanto.
DançaUm pouco de batida de dança imiscui-se no pulso de ‘‘Might as Well Get Juiced’’ e ‘‘Always Suffering’’ faz lembrar Lou Reed, na música, no acompanhamento instrumental, na maneira de cantar e até na poética. ‘‘Too Tight’’ é como um rock dos Stones do início de carreira, simples, direto, radical. Ao final, Keith Richards abraça o blues com sua voz cava de fumante _ curiosamente, faz lembrar Ray Charles, em algumas aberturas de frase melódica, e na utilização do coro de extração gospel - em ‘‘Thief in the Night’’ e ‘‘How Can I Stop’’.
‘‘Bridges to Babylon’’ refere-se à ponte que leva até Manhattan, coração de Nova York, apelidada Babilônia (Babylon), o que justificaria a diversidade (há outras citações e aproximações, de Bowie a Dylan e Prince e Tom Waits e muitos mais). Nem precisaria, entretanto. Afinal, toda essa música a que chamamos rock’ n’roll tem seu ponto de concentração e expansão nos Rolling Stones: justa auto-homenagem.

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