Rock com blues
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terça-feira, 15 de abril de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Ninguém sabe ainda se eles são casados, irmãos ou velhos amiguinhos de colégio. Jack White (vocal e guitarra) e Meg White (vocal e bateria) devem se divertir às pampas com a curiosidade alheia, especialmente por que a brincadeira ajuda a alimentar o marketing em torno da dupla.
Convictos, os White Stripes continuam trajando roupas brancas e vermelhas. Provavelmente seriam taxados de cafonas pelos editores de moda não fosse o estouro do álbum ''White Blood Cells'', que os guindou do anonimato para o estrelato dois anos atrás. Na última temporada, sucederam os Strokes nas capas das revistas especializadas.
Em meio às badalações, Jack foi eleito o cara mais ''cool'' da música pop pela revista inglesa New Musical Express. O hype parece interminável. O novo disco, ''Elephant'' (Sum Records), já evapora das lojas britânicas. Está chegando ao Brasil simultaneamente ao resto do mundo. Foi gravado meio nas coxas, como se costuma dizer, levando duas semanas para ser concluído.
As sessões de gravação foram realizadas em novembro, num estúdio de Londres. As primeiras 500 cópias promocionais saíram em formato de vinil e distribuídas em janeiro para alguns jornalistas. A idéia era proteger as canções do vazamento pela Internet. Não adiantou. Dias depois, as faixas do CD já circulavam livremente pela rede através de arquivos MP3.
O disco reitera a estética garageira da banda, com ênfase na reciclagem do rock blues sessentista. É estridente, áspero, cru, nada palatável para indies que educaram os tímpanos ouvindo bandas inglesas em busca da melodia pop perfeita. Jack soa às vezes como Robert Plant, do Led Zeppelin, banda britânica que interpretaria o blues à sua maneira e fincaria alguns dos pilares do heavy metal.
Uma das novidades do novo material é a linha de baixo que conduz a faixa de abertura, ''Seven Nation Army'', que intercala voz e duas notas graves do instrumento com explosões ruidosas. É a primeira vez que o duo de Detroit utiliza o baixo numa gravação. Outra surpresa é ''I Just Don't Know What to Do with Myself'', uma cover demolidora de Burt Bacharach cujo refrão parece colar na cabeça.
Apesar do instrumental mimalista, a banda dribla a eventual monotonia com atmosferas diversas indo da acústica ''You've Got Her in Your Pocket'' às guitarradas encardidas de ''Girl, You Have No Faith in Medicine'' e ''Hypnotize''. A cantora inglesa Holly Golightly faz uma participação dividindo os vocais com Jack e Meg na faixa-country ''It's True That We Love One Another'', a última do disco.
Mas o grande destaque do repertório talvez seja ''There's No Home for You Here'', uma balada rasgada com tratamento vocal inspirado em arranjos para coro. O álbum ronda o primeiro posto das paradas internacionais. A turnê promocional já começou. No mês passado, Meg quebrou o braço e forçou o grupo a cancelar alguns shows.
Paralelamente ao lançamento do CD, os White Stripes enfrentam a denúncia de plágio disparada pelo crítico de cinema Roger Ebert, que acusou a banda de ter surrupiado um diálogo do filme ''Cidadão Kane'', de Orson Welles, embutindo-o sem creditar na letra de ''The Union Forever'', do álbum anterior ''White Blood Cells''. Também nesta temporada, tentam cavar um espaço na agenda para gravar um single de músicas inéditas em parceria com os Strokes.
Jack ainda está envolvido na composição da trilha sonora de ''Cold Mountain'', próximo filme do diretor Anthony Minghella, no qual fará uma ponta como ator.


