ROCK COM AMBIÇÃO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de setembro de 2001
Nelson Sato<br> De Londrina 
Acredite se quiser, mas os aclamados Belle and Sebastian correm o risco de serem ofuscados pelo Sigur Rós durante o Free Jazz Festival, que acontece mês que vem no Rio e em São Paulo. O motivo é que a badalação em torno dos escoceses já extrapolou o pequeno círculo original de seguidores com o lançamento de seus discos no Brasil, ao passo que a reverência aos islandeses ainda nem começou, o que faz muita diferença no mundinho pop.
No sobe-e-desce dos cultos, valoriza-se o que ainda não caiu na boca do povo. Na Inglaterra, o Sigur Rós foi saudado como a principal revelação do ano passado a ponto de levar o exigente Thom Yorke a convidá-los para abrir a turnê européia do Radiohead. ''Ágaetis Byrjun'' (importado), o segundo álbum do grupo, é de 1999. Mas só ganhou edição americana há dois meses. No Brasil, chega às lojas no próximo mês, poucos dias antes da apresentação da banda no Free Jazz.
O CD traz nove canções longas e lentas, todas climáticas e celestiais mesclando guitarras e arranjos orquestrais. As letras misturam o idioma islandês com o Hopelandish, uma língua imaginária, inventada pelo guitarrista e vocalista Jón Thór Birgisson. Em ''Svefn-G-Englar'', a faixa de abertura, o grupo revela influências do finado My Bloody Valentine.
Mas trata-se apenas de uma vinheta introdutória para a bela ''Starálfur'', cujo clipe já foi exibido algumas vezes no programa Lado B, da MTV. É a grande faixa do álbum ao lado de ''Olsen Olsen'', ambas ricas em texturas com direito a cellos, sopros e teclados etéreos. Na épica ''ViÁrar Vel Til Loftárása'', a trama instrumental acrescenta gaita, flauta e ruídos indecifráveis.
Muitos tentam, mas não conseguem definir o art-rock do grupo. ''Estamos no universo fantástico do pop psicoplacentário, da proto-sinfonia barroco-eletrônica, do pós-soul ígneo, gospel onírico-anárquico e é claro que não há a menor condição de dizer do que se trata'' - escreve o VJ da MTV Fábio Massari em seu livro recém-lançado ''Rumo à Estação Islândia''.
O repertório do novo álbum remete a linha de composições contemplativas de bandas como Mogwai e Godspeed You Black Emperor. Parece herdar também o registro glacial de grupos como Cocteau Twins e Dead Can Dance, que marcaram a gravadora independente britânica 4AD na década de 80. ''Somos apenas instrumentos a serviço dos deuses'' - declararam os integrantes à revista inglesa Select no ano passado.
Sigur Rós devolve ambições ao rock.


