Robin Hoods de uniforme
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha 2
Esta foi uma experiência que me ensinou que se pode fazer um filme no exato limite entre o que é comercial e o que é independente. E não tenho nenhuma dúvida que este é o maior desafio a se enfrentar nesta profissão. A sentença-revelação de David O. Russell é séria e deve ser levada em conta. Afinal, para dirigir este Três Reis (veja a programação de cinema nesta página), ele teve que conciliar os megainteresses da Warner com sua concepção de um tipo de cinema em escala pensante. Um conflito e tanto, para o circo hollywoodiano.
Março de 1991. A Guerra do Golfo chega ao fim. As tropas dos Estados Unidos comemoram no deserto o cessar-fogo. E três soldados norte-americanos querem voltar para casa. Mas querem voltar com alguma compensação financeira. Eles levam ao major Archie Gates (George Clooney) um pequeno mapa que extraíram do ânus de um soldado iraquiano prisioneiro. Durante a reunião, Gates decifra o mapa e o grupo fica sabendo que os iraquianos enterraram muitos milhões de dólares em barras de ouro não muito longe de onde estão.
Gates então propõe que o quarteto o título original é uma referência a um cântico natalino pegue um veículo do exército, vá até o local, pegue o tesouro na surdina e volte para casa rico. Será rápido e simples, segundo ele. Mas é óbvio que a esta altura o espectador já sabe que não será assim tão fácil, ou o filme estaria liquidado em mais dez minutos.
Apenas duas entre as muitas complicações: uma repórter de TV suspeita de algo e segue o grupo; e os militares americanos descobrem a finalidade da expedição e ficam consideravelmente contrariados. Furiosos, caberia melhor.
Russell, que escreve sempre seus próprios roteiros (levou 18 meses para concluir este), baseou o de Three Kings numa história de John Ridley. E como em seus dois filmes precedentes sua evolução como diretor tem sido notável ele tem bem mais coisas na cabeça do que uma movimentada caça ao tesouro recheada de perigos em série e pontilhada por situações bem-humoradas (aviso: o filme é um drama, e o que mais pode aproximá-lo de uma comédia é o cinismo que o espectador atento vai observar).
Durante esta jornada, há tempo suficiente para Russell demonstrar a devastadora realidade de uma guerra e seus nefastos desdobramentos no quintal de quem a hospeda. E também jogar alguns lances cruciais na intrincado xadrez da política de intervenção norte-americana no Oriente Médio. Os personagens em busca da fortuna, quando confrontam a situacão do Iraque com sua própria condição humana, são forçados a repensar o que estão fazendo e a refletir sobre quem são na realidade. O velho recado é aqui reforçado: a guerra é insana. E o que pode ser bem pior, deixa os homens loucos e capazes de ações loucas na mesma medida.
O filme não ficou pronto sem alguns embates dignos de nota. Para obter o papel principal, George Clooney brigou muito e acabou se impondo sobre vários nomes até com mais trânsito de estudio. E Russel batalhou meses nas trincheiras atrás de recursos. A relação com a Warner se complicou por causa da postura crítica do filme diante da política externa do governo americano. Elenco e equipe técnica tiveram seus salários podados para manter o orçamento abaixo de US$ 50 milhões. E se isso não bastasse, Clooney e o diretor Russell entraram em rota de colisão por problemas ligados à linha do personagem. De qualquer maneira, ambos sairam fortalecidos por algumas elogiosas resenhas críticas.





