Por muito tempo, Robin Hood foi sempre associado à figura do herói que roubava dos ricos para dar aos pobres. No entanto, “A Morte de Robin Hood”, o novo filme da A24 (a produtora independente queridinha da cinefilia, no momento surfando forte nas ondas do sucesso obtido pela arriscada via do risco criativo), em lançamento em varias salas de Londrina, estrelado por Hugh Jackman e dirigido por Michael Sarnoski, propõe algo diferente. Seu objetivo não é apenas desconstruir o mito, mas ainda apresentar uma versão muito mais violenta, ambígua e próxima da origem da lenda, embora o diretor Michael Sarnoski (“Pig”) reconheça que nunca existiu um único Robin Hood real.

No trailer que circulou recentemente havia uma intenção clara. "As pessoas falam de Robin Hood, contam suas histórias, mas todas são mentira", afirmava-se nas imagens desafiando o perfil do herói nobre popularizado pelo cinema. O que o diretor também propõe é uma narrativa muito mais sombria, na qual o famoso fora da lei carrega um passado sangrento.

ROBIN HOOD NÃO ERA ÚNICO

Diante do que se assiste, essa reinterpretação parte de uma ideia muito simples: a de que provavelmente nunca existiu um único Robin Hood. O que as imagens tratam é de um mix de vários fora da lei medievais cujas histórias foram se transformando ao longo dos séculos até se tornarem a lenda que todos conhecemos. De fato, essa busca por autenticidade também marcou a ambientação do filme. A história está situada no ano 1274, e uma pesquisa notável ilustra como era realmente a vida na Inglaterra medieval, afastando-se da visão romântica habitual. Uma ideia recorrente era mostrar um mundo onde a violência cotidiana era um fato, e a sobrevivência dependia muito mais da força do que do heroísmo.

Impossível não ter como tentação crítica diante de “ A Morte de Robin Hood”, (que é sobre um personagem errante e crepuscular) a lembrança de “Robin e Marian” (Richard Lester, 1976), no qual um Sean Connery careca, barbudo e debilitado tentava conquistar, pela última vez, uma Lady Marian interpretada por Audrey Hepburn. Mas “A Morte de Robin Hood”, embora parta de premissa semelhante, não pretende reescrever o romantismo tardio de Lester, mas sim utilizar a figura do lendário arqueiro para aprofundar um tema para nós contemporâneo: o passado como um laço vital e a impossibilidade de redenção. Digo “para nós" porque, de algum tempo para cá – mais especificamente a partir da pandemia –, o cinema (independentemente do gênero ou da nacionalidade) tem abordado com certa frequência temas e enredos cuja origem é sempre um trauma.

O Robin de Sarnoski é essencialmente um personagem concebido sob essa ótica pessimista; portanto, qualquer avaliação do filme deve levar em conta que, aqui, o aspecto psicológico prevalece sobre qualquer outra dimensão dramática ou narrativa.

Que ninguém espere nem um pingo de aventura, de épico ou de segundas chances no amor. Sarnoski sabe que seu protagonista já percorreu esse caminho pelas mãos de Errol Flynn, Sean Connery, Kevin Costner, Russell Crowe ou Tom Holland — para citar apenas algumas das encarnações mais populares do personagem. Assim, o diretor se dedica àquilo que faz de melhor: retratar indivíduos perseguidos por seus fantasmas. Ele já havia demonstrado isso em seu intrigante filme de estreia, “Pig” (2021), e confirmou a tendência em “Um Lugar Silencioso: Dia Um /A Quiet Place: Day One”, 2024), ambos lançados antes nos cinemas e agora á disposição em plataformas de streaming.

Sua praia é a tragédia, a dor e o desespero como vetores de histórias condenadas a terminar mal – ou muito mal. Talvez por ser um niilista convicto, ou por detestar finais convencionais.

“A Morte de Robin Hood” deslumbra graças à magnífica direção de fotografia de Patrick Scola
“A Morte de Robin Hood” deslumbra graças à magnífica direção de fotografia de Patrick Scola | Foto: Divulgação

FACA DE DOIS GUMES

A realização, que ostenta a marca registrada de sua produtora (pelo menos daquela anterior à adesão à inteligência artificial...), exibe uma dualidade rítmica e de tom digna de elogios pela ousadia, mas que, entretanto, acaba se tornando faca de dois gumes após os 30 minutos iniciais avassaladores, marcados pela crueza, pela sujeira, pela violência mais visceral e por um senso de espetáculo tão sóbrio quanto impactante. Infelizmente, após esse começo magnífico, "A Morte de Robin Hood" nos mergulha em 90 minutos muito mais convencionais e lamentavelmente entediantes, nos quais o excesso de seriedade e a previsibilidade da trajetória do protagonista minam completamente a eficácia do primeiro ato. Por sorte, o filme guarda alguns trunfos na manga.

O primeiro é um elenco particularmente inspirado, com a inglesa Jodie Comer como a prioresa Irmã Brigid. Na trama, ela acolhe e cuida de um Robin Hood gravemente ferido após sua última batalha, tornando-se a chave para a redenção do herói e brilhando como o necessário contraponto luminoso em um universo sombrio e sufocante. A atriz chega a eclipsar Hugh Jackman – que por sua vez é extremamente eficiente em um papel que parece uma espécie de repetição, no piloto automático, de seu “Logan” de 2017 (o que não é, diga-se, algo negativo).

Mas, acima de tudo, “A Morte de Robin Hood” deslumbra graças à magnífica direção de fotografia de Patrick Scola, colaborador habitual de Sarnoski. O iluminador elevou a já fantástica encenação do realizador, explorando as texturas da filmagem em película em prol da atmosfera e brincando de forma inteligente com formatos e proporções de tela, o que, de certa forma e paradoxalmente, torna ainda mais evidentes altos e baixos do conjunto.

É quase contraditório e, por que não dizer, decepcionante, que uma abordagem original e radicalmente diferente do fora da lei das florestas de Sherwood tenha acabado se revelando muito mais convencional e insossa do que se poderia esperar. No entanto, mesmo com esse leve amargor residual, “A Morte de Robin Hood" pode ser considerado um sucesso (ainda que comedido) justamente por seus esforços em se distanciar, com maior ou menor êxito, dos lugares-comuns e das dinâmicas repetidas “ad nauseam”.

mockup