‘‘Roberto Zucco’’, texto do francês Bernard-Marie KoltSs, é uma obra-prima da dramaturgia contemporânea. Por obra-prima leia-se uma composição que desafia a nossa observação, que nos conduz por uma perspectiva infinita. Quando nos deparamos com um exemplar desta espécie em uma galeria de arte, por exemplo, nosso olhar é capturado e o nosso desejo é de continuar ali, explorando o universo sugerido pela obra. Uma obra-prima não nos oferece respostas, ela nos leva a um estado de emergência que apura nossos sentidos, altera nossa visão do mundo.
Realizar no teatro uma obra-prima como ‘‘Roberto Zucco’’ não implica em nenhuma prisão formal, implica sim em chegar a este estado de prontidão que permite a atores e encenadores trazer à cena a perspectiva, o desdobramento das ações verbais e físicas propostas pelo texto.
A montagem de ‘‘Roberto Zucco’’, com direção de Nehle Franke, apresentada pelo Núcleo de Teatro do TCA, de Salvador, dentro do Festival de Teatro de Curitiba, sofre com os percalços deste processo.
A peça trata de um jovem, Roberto Zucco, que foge da cadeia, onde estava preso pelo assassinato de seu pai. De novo nas ruas, assassina a mãe, um policial e uma criança, além de relacionar-se com outros personagens da cidade.
O poder da metáfora Roberto Zucco situa-se no fato de que ele realiza seus crimes sem ódio ou qualquer outro motivo, e passeia na selva de uma cidade comum, habitada por personagens tão comuns quanto hábeis em suas pequenas violências. Neste percurso, KoltSs cria um mosaico mostrando a formação da violência nas relações. É lírico e assustador. Sentimos que ela está embaixo de nossa pele, impregnando nossas relações.
Na montagem de Nehle Franke estes instintos são colocados em cima da mesa, o que resulta em convulsões, gritos, sopapos, rasteiras, curras, etc. O espetáculo pretende, criando um incômodo e fazendo do espectador testemunha do tormento dos personagens, instigar a platéia. O espectador registra isso e relaxa; não encontra um perigo real e iminente.
Esta opção é de grande prejuízo para a montagem, pois compromete o refinamento do conteúdo do texto. As sutilezas das relações entre os personagens se perdem, o texto salta da boca dos atores - ininteligível na maioria dos momentos - desperdiçando seu humor, sua pungência e seu lirismo desconcertante. O espetáculo avança neste tom, sem um crescente, sem um contraponto, necessários mesmo em um texto fragmentado e ácido como este.
A diretora poderia ter optado por uma pesquisa mais interessante da temática e da linguagem sem recorrer à montagem de um texto complexo como ‘‘Roberto Zucco’’. Para aqueles que conhecem a poesia visceral do inquieto e inconformado KoltSs, levado pela Aids em 1989, aos 41 anos, fica uma sensação de que muita coisa fica faltando.

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