São Paulo, 13 (AE) - Um texto depurado ao longo dos anos em montagens nas quais o autor sempre esteve envolvido. Assim é "Diana", monólogo escrito e interpretado por Celso Frateschi, sob direção de Roberto Lage, que estréia hoje no ágora, antigo Teatro do Bixiga. "Diana" é o nome dado pelo personagem - um ex-professor que vive na rua - à escultura Saindo do Banho, de Victor Brecheret, no Largo do Arouche, pela qual ele se apaixona.
A fábula de um homem inútil poderia servir como subtítulo para a história desse personagem que não soube lidar com a traição da mulher e preferiu a fuga de uma paixão virtual. Mas as suas dificuldades com a vida estão longe de se restringir ao afeto. Em sua profissão, também não conseguiu superar os obstáculos - diga-se de passagem imensos, no caso de um professor brasileiro - e, no lugar de tentar interferir, mais uma vez preferiu o escapismo. "Ele nada tem de herói", diz Lage.
Frateschi escreveu as primeiras cenas desse texto em 1987, na época um exercício dramatúrgico inspirado no monólogo Diário de um Louco, de Gogol. Interpretadas despretensiosamente por Cássio Scapin, então "aluno" de Frateschi na Escola de Arte Dramática, conquistaram o público e renderam a Scapin um Prêmio Apetesp. Desde então, Frateschi realizou mais três montagens, a última em 1992, sempre aperfeiçoando o texto.
O personagem está numa cela, onde ele conversa com uma lâmpada, dessas que lembram os interrogatórios policiais. Não foram poucos os que enlouqueceram sob tortura, uma possível causa da loucura do personagem, mas o texto deixa isso em aberto. O personagem tem inspiração longínqua em um pintor, um dos 30 presos políticos com quem Frateschi dividiu uma cela na década de 70. "Ele enlouqueceu na prisão; fazia uma resina com casca de banana e com um palito de fósforo desenhava na parede da cela". Sugestão - "Na primeira versão, o aspecto político era muito mais explícito, calcado na denúncia", explica Frateschi. "Afinal, não posso negar que sou fruto do Teatro de Arena de São Paulo". O que era explícito na primeira versão, agora está sugerido, mas não foi eliminado. "Cheguei a pensar numa atualização, mas preferi manter a época, a década de 70, porque acho que o caráter exemplar da fábula fica ainda mais clara com esse distanciamento".
A fábula fala de um homem cuja vida está marcada pela indigência afetiva. "Ele prefere relacionar-se com coisas - uma escultura, uma lâmpada ou guarda-chuva - em vez de pessoas. Mas não se trata de uma solidão romântica. O que está em cena é o mais contemporâneo individualismo, o isolamento de quem se desencantou. "É muito atual a sensação de impotência, até politicamente todo gesto de protesto parece inútil", diz Frateschi.
"E nessa virtualidade não se sabe mais como interferir, até mesmo as empresas se transformaram em conglomerados, sumiu a figura do patrão, o poder fragmentou-se", observa Lage. Essa sensação de impotência foi traduzida pelo cenágrafo Márcio Medina, que multiplicou a lâmpada sugerida por Frateschi no texto. "Optei por um cenário mais conceitual e criei um labirinto de lâmpadas", diz Medina, que já havia criado o cenário das versões anteriores. A parceria artística entre Medina, Lage e Frateschi vem de longa data. "É muito bom criar nesse clima de cumplicidade", afirma Lage. (B.N.) Serviço - "Diana". Tragicomédia. De Celso Frateschi. Dir. Roberto Lage. Duração: 60 minutos. R$ 15,00. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. Grátis. ágora. Rua Rui Barbosa, 672, tel. 284-0290. Até 30/4

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