ROBERTO DE REGINA GRAVA OBRA DE RAMEAU
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quinta-feira, 07 de setembro de 2000
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
A maior autoridade em música antiga no País e criador da Camerata Antiqua de Curitiba, Roberto de Regina, conquistou o atestado de maioridade artística, conforme suas próprias palavras. Ele acaba de concluir as gravações da obra integral do compositor e teórico francês Jean Philippe Rameau (1683-1764), que ao lado de Johann Sebastian Bach e François Couperin também gravados na íntegra pelo maestro , forma a tríade fundamental do cravo.
Este trabalho desenvolvido na Capela Madalena, no município fluminense de Barra de Guaraitiba, ocupou o último ano e meio de Roberto de Regina, e do engenheiro de som Otto Dreschler. Agora só falta ir ao disco, e como o cravista tem feito seus lançamentos pelo selo Paulus, pode ser que este seja o caminho. Porém, até o momento nada está firmado. O Cravo Fantástico de Rameau, reunindo a obra integral do compositor, é um trabalho inédito no Brasil.
A gravação constitui uma proeza: ela não é longa, mas é complexa. É uma obra difícil estilística e tecnicamente, comenta De Regina. As armadilhas são variadas, próprias da música antiga francesa. Ela oferece ao intérprete possibilidades de ornamento, mas não lhe dá uma noção precisa dessa liberdade. Não pode exagerar, diz o maestro. Quanto à técnica é preciso certo domínio do teclado.
Em outras palavras, quem se aventurar a executar Rameau tem que ser um virtuose, especialmente em algumas peças consideradas as mais complexas. Aí junta-se o rendilhado típico francês com um pouco do virtuosismo de Scarlatti. Roberto de Regina entusiasma-se na explicação das obras, desde o subjetivismo das intenções musicais ao uso de pedais e improvisações. É uma declaração de paixão ao autor. Rameau muitas vezes transcende ao cravo, diz, como se este antevisse a era do piano.
A execução da obra integral de Rameau dá um atestado de maioridade artística ao intérprete, avalia o maestro. Importante é que esta obra tem um discurso emocional; o cravo, não sendo tão sonoro quanto o piano, tem que dar uma retórica com essa mesma intenção. Enquanto a obra de Couperin é cravetinística, a de Rameau é mais audaciosa está entre o cravo e o piano.
O humor está presente no compositor francês contemporâneo de Voltaire. Com a mesma serenidade com que escreveu sobre os diálogos de musas, exigindo do intérprete a sensibilidade necessária para reproduzir esse momento de poesia, ele também se dava ao luxo de trazer à música cenas corriqueiras que transcorriam à sua volta como o passeio distraído de galinhas no terreiro ao cantar dos passarinhos.
Porém, o humorismo descortina uma visão crítica, quase cáustica da sociedade, sem que a maioria perceba a sutileza desse discurso. Assim como há um minueto de extrema elegância, lembrando os iluminados salões com suas mulheres graciosas, a seguir vem A Capenga um contraste duro, quase maldoso entre as imagens.
Por serem duas peças simples, que não exigem virtuosismo dos intérpretes, costumam ficar à margem numa espécie de limbo do esquecimento. Inútil esnobismo dos músicos: A gente tem que estar atento nas muitas mensagens das entrelinhas, ensina o maestro. Em Triunfante Rameau criou uma obra de andamento heróico, mas Roberto de Regina tomou a liberdade de lhe dar uma visão de marcha fúnebre num determinado momento.
O título é determinante o ar de triunfo envolve as últimas notas, mas o intérprete não se furtou a colocar uma visão muito particular quando sugeriu o tom funéreo. Toda vitória tem morte. Por mais que a peça seja heróica, a gente vai encontrar sempre uma semente da morte. Daí porque costumo dizer que a obra de Rameau é um pequeno universo, denso e cheio de poesia, considera o artista. Dois CDs absorvem esse breve e rico universo.


