O projeto ‘‘Identidade dos Palcos - Martins Pena’’, que está sendo produzido pelo Sesc Paraná, trouxe a Curitiba, ontem, o coreógrafo Roberto de Oliveira para uma oficina de um dia sobre linguagem corporal. Os participantes são os coordenadores do projeto nas cidades onde as peças serão produzidas, além de atores e técnicos. Oliveira é formado pelas melhores escolas européias e já trabalhou em várias delas.
Segundo Oliveira, para a linguagem corporal não existem regras. Cada corpo tem sua identidade e um código a ser descoberto. ‘‘A minha intenção é tentar abrir portas e janelas para esses atores. Um dia só é pouco tempo porque na verdade esse é um trabalho para a vida toda de um bailarino. O balé é a mais demorada das artes. É preciso bons professores, chão, linóleo, pianistas, coreógrafos, cenógrafos, iluminadores, estúdio, figurinista. A consciência corporal que uma pessoa possa desenvolver é algo muito minucioso. O que vamos fazer, em um dia, é mostrar as possibilidades de expressão’’.
Numa palestra de Mikhail Baryshnikov, em Londres, Roberto de Oliveira, ouviu-o dizer que faz com o corpo o que bem entende: cinco piruetas, um mortal duplo, cair no chão, subir uma parede. ‘‘Isso é a condição básica para um ator também. O domínio e a consciência corporal são necessários talvez as coisas mais falha que ainda vemos nos palcos.’’
Esse domínio deve ser emotivo, técnico, corporal e estar enquadrado dentro de uma expressão plena. ‘‘A atuação teatral é que deve ser entendida. E isso depende do diretor’’. Existe um processo para se chegar a isso. Muita disciplina, muito trabalho.
‘‘Sempre dou para os bailarinos o máximo de informações sobre cenário, iluminação, figurino, e da história. Por exemplo, quando fiz a versão contemporânea de Cinderela para a Ópera de Berlim, discutimos muito sobre cinderilismos, a posição da mulher, ela ter de transforma-se na Cinderela moderna que é a top-model. Então o balé todo se passa no mundo da moda.’’
A dança não é só passos, o teatro não é só palavras. ‘‘É difícil hoje pensar a dança e o teatro só com a parte corporal. Nas peças de Martins Pena, que o Sesc está produzindo, deve-se explorar a parte histórica, o desenvolvimento do teatro (ele foi um grande dramaturgo, um dos primeiros no País), os costumes de uma época peculiar, de um Brasil que começa a existir.’’
Para atingir esses objetivos, Oliveira faz uma grande fusão com compositores, cenógrafos, figurinistas e técnicas. Mas trata cada caso, individualmente, onde o instrumento principal é a dança. ‘‘Como coreógrafo o mais interessante é liderar a dança associada a outras artes. Inspirar-se nos outros.’’
‘‘Isso significa que no balé e no teatro não se pode ter desfile de moda; tem de ter figurino. Não se pode ter decoração, tem de ter cenografia. Não se pode ter efeito de luz, mas iluminação. Tudo tem uma razão de ser no palco’’, afirma Roberto de Oliveira.
A expressão corporal é ilimitada. Mais subjetivo do que a palavra, o corpo tem uma comunicação mais ampla que a gramática. É entendido em todas as cuturas e línguas. ‘‘Tento sempre dar um passa atrás e dois a frente, ao fazer uma fusão com as outras linguagens’’, argumenta.
Entre os coreógrafos atuantes mais respeitados do mundo, Roberto cita Angelin Préjecaj, que trabalha na região da Province francesa. ‘‘Ele está se voltando para o lado do drama e do personagem, que havia se perdido muito na dança. A dança tem feito mais uma produção de balé contemporâneo, uma cadeira, um bailarino e isso já se esgotou. São experimentos que não dizem nada. Agora, temos de voltar a dizer e expressar alguma coisa.’’
Sobre o que se faz no Brasil, Roberto de Oliveira argumenta que aqui se faz eventos, não havendo continuidade nos projetos. ‘‘O nível educacional e social é muito baixo. Precisamos de iniciativas para criar uma continuidade nas atividades culturais. Falta no País uma inteligência cultural.’’
Como exemplo, Roberto conta que foi chamado ao Paraná para montar uma escola de dança contemporânea – a primeira na América do Sul.‘‘Fiquei aqui um ano e meio e pura e simplesmente nada ocorreu. Estou indo para o Rio de Janeiro montar essa companhia com o Richard Cragun, um dos coreógrafos mais reconhecidos mundialmente’’.

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