São Paulo, 22 (AE) - O rescaldo do Oscar 99 fica assim: no âmbito doméstico, decepção para quem se iludiu com a possibilidade de o Brasil ganhar pelo menos uma das duas estatuetas em disputa (atriz e filme estrangeiro); no plano geral, a até certo ponto surpreendente vitória de "Shakespeare Apaixonado", de John Madden, que leva sete troféus dos 13 a que estava indicado (melhor filme, atriz, atriz coadjuvante, roteiro original, figurino, trilha sonora/comédia, direção de arte).
"O Resgate do Soldado Ryan", de Steven Spielberg, tido até a hora da cerimônia como virtual vencedor, teve de se contentar com cinco estatuetas, concentradas em prêmios técnicos, de um total de 11 indicações (diretor, fotografia, montagem, som e efeitos sonoros). Em termos numéricos, "A Vida É Bela", de Roberto Benigni, foi o terceiro colocado, com os prêmios de filme estrangeiro, trilha sonora e ator.
Mas se a análise não limitar-se ao aspecto numérico, a derrota de Spielberg para Shakespeare torna-se ainda mais transparente. Dos cinco prêmios de "Soldado Ryan", quatro são técnicos, sobrando o troféu de diretor. Ou seja, conceitualmente
o filme não agradou. Spielberg reafirma seu poder no interior da indústria, mas, desta vez, o produto que apresentou não foi tão convincente. De fato, o mérito de Ryan resume-se na proeza técnica dos primeiros 30 minutos, com as impressionantes cenas do desembarque na praia de Ohama. O resto não passa de um convencional filme de guerra, visto milhares de vezes no cinema. Sem novidades.
"Shakespeare Apaixonado", ao contrário, revela inspiração de quem o escreveu, dirigiu e interpretou. Claro, Madden não ganhou porque Spielberg, segundo o inconsciente coletivo da academia, teria de levar alguma coisa de significativo. Ficou com a estatueta de diretor por esse motivo, e também pela meia hora inicial de Ryan.
Shakespeare é mais engenhoso, simples sem deixar de ser sofisticado. Aquele tipo de filme que pode ser visto tanto como uma bela história de amor como reflexão sobre as relações entre arte e vida. Ou seja, vai do singelo ao complexo - e você pode tirar dele o que bem entender. Essa qualidade múltipla deve-se ao roteiro de Marc Norman e Tom Stoppard, justamente premiado.
Em certo sentido, com seu overacting contumaz, Roberto Benigni foi o dono da noite. Empalmou o Oscar que, para os incautos, era destinado a Walter Salles. Faturou ainda o de trilha sonora/drama, escrita por Nicola Piovani, e leva para casa esta jóia da coroa que é o troféu de melhor ator. Com ele, Benigni e sua compatriota Sophia Loren passam a ser os dois únicos falantes de língua não-inglesa a vencer o prêmio principal de interpretação da academia. Ponto para o idioma de Dante Alighieri.
Central - Filme por filme, "Central do Brasil" e "A Vida É Bela", tão diferentes em tratamento, apesar da coincidência de nomes dos protagonistas, equivalem-se em termos de qualidade. O Oscar ficaria bem com qualquer dos dois. Foi para o italiano e agora é inútil chorar sobre o leite derramado. Pode-se falar em lobby, em jogo de cartas marcadas, etc. De fato
a Miramax pôs dinheiro grosso na divulgação dos filmes. Isso porque o Oscar é negócio e dá retorno financeiro. Uma questão de análise da relação custo-benefício. Simples assim.
Além disso, quando Sophia Loren foi convidada para entregar a estatueta de produção estrangeira, ficou claro que Benigni seria o contemplado. Não houve a menor expectativa quanto a isso e a fala inicial de Sophia, antes de apresentar os concorrentes, mostrou que tudo aquilo era uma farsa e até as pedras em Los Angeles conheciam o conteúdo do envelope. Enfim, o absoluto sigilo sobre o resultado do Oscar é mais um mito que se vai. E vai tarde.
O caso de Fernanda Montenegro seria mais grave, caso o Oscar fosse uma premiação séria. Seu trabalho em "Central do Brasil" é infinitamente mais completo e complexo que o de Gwyneth Paltrow em "Shakespeare Apaixonado". Gwyneth é um belo rosto, uma profissional promissora para a indústria. Foi contemplada por isso.
Para nós, brasileiros, ficam uma ou duas lições. Deveríamos limitar o clima de Copa do Mundo ao futebol, seu foro adequado. Arte é outro departamento. "Central do Brasil" é um dos melhores filmes da década e já sabíamos disso antes da indicação para o Oscar. Fernanda Montenegro é das grandes atrizes do planeta. Não precisa de estatueta dourada para provar isso. Basta vê-la no palco ou numa tela. Assim, em tese, deveríamos ser menos dependentes do julgamento alheio para valorizarmos nossas qualidades. Mas auto-confiança é um bem que se adquire a muito custo, como melhor distribuição de renda ou educação para todos.
Momentos inesquecíveis - A cerimônia no Dorothy Chandler Pavillion reservou outros momentos inesquecíveis, além da espalhafatosa comemoração de Roberto Benigni. Houve o ridículo de Val Kilmer entrando no palco montado a cavalo para homenagear o gênero western. Foi o ponto máximo da proverbial breguice do Oscar, uma tradição nunca desmentida, para alegria de um público estimado este ano em 1,5 bilhão de pessoas.
Houve ainda o discurso assustador do general Collin Powell elogiando os filmes de guerra em concurso, "O Resgate do Soldado Ryan" e "Além da Linha Vermelha", o primeiro sobre o desembarque da Normandia, o segundo sobre a campanha em Guadalcanal. O patriotismo pode ser uma bela qualidade de cidadão. Aliás, como se copia tudo dos americanos, esta atitude positiva em relação ao país de origem poderia até ser emulada, desde que com maior parcimônia para não se cair no ridículo. Outra coisa é associar o amor pela própria terra a glórias bélicas, aos atos de heroísmo de gente que, em geral, morria sem ter a mínima idéia de por que estava lutando.
Nesse sentido, não deixa de ser sintomático o esquecimento completo de "Além da Linha Vermelha", de Terrence Malick, exemplar radical do cinema antibelicista. Ao contrário de Spielberg, Malick desce à essência do horror, não procura desculpas nem atenuantes para ele, concentra-se na desumanização inerente ao ato de guerrear. Spielberg não contorna o horror, pelo menos no início, mas modera-o com o conceito de guerra justa, coincidente com o ponto de vista da caserna e, portanto, mais palatável para o espírito do império.
Houve também o caso Elia Kazan, que recebeu um Oscar especial. Kazan, como se sabe, dirigiu algumas obras-primas, como Sindicato de Ladrões e Vidas Amargas, mas foi também um delator de seus pares. Durante o macarthismo denunciou alguns colegas suspeitos de esquerdismo ao Comitê de Atividades Anti-americanas. Arruinou a carreira de muita gente. Ex-comunista, justificou sua atitude em jornais e jamais arredou pé de suas convicções. Como na canção, faria tudo outra vez.
A premiação de Elia Kazan estabeleceu a maior polêmica deste Oscar 99 porque reabre o velho e penoso debate sobre a relação entre vida pública e obra. Ezra Pound e Louis-Ferdinand Céline foram escritores acima de qualquer discussão, mas, fascista um e nazista outro, conheceram a execração em vida. Seus livros não saem prejudicados por isso; tanto os Cantos quanto Voyage au Bout de la Nuit são patrimônios permanentes da humanidade. Mas é preferível esquecer a biografia de quem os escreveu. O mesmo talvez valha para o cineasta genial que não hesitou em estragar a vida de colegas e ex-companheiros para salvar sua carreira em Hollywood.
Talvez não confiando na disciplina da platéia, a academia resolveu convocar dois pesos-pesados para receber Kazan
o diretor Martin Scorsese e o ator Robert De Niro. Sob o manto protetor da dupla, o homenageado, lépido aos 89 anos, sairia incólume da homenagem, como de fato saiu. Não houve vaias perceptíveis e o seleto público presente dividiu-se entre o aplauso e o silêncio quando o veterano cineasta subiu ao palco. Apesar de as câmeras tentarem destacar quem aplaudia e esconder quem se omitia, deu para notar que os atores Ian McKellen, Nick Nolte e Ed Harris permaneceram estáticos, braços cruzados, em muda homenagem às vítimas daquele período de obscurantismo do qual Elia Kazan participou ativamente.

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