RÔ RÔ VOLTA SAMBANDO
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de fevereiro de 2001
Antônio Mariano Júnior De Londrina 
O telefone toca três vezes.
Alô!
Quem fala?
Eu mesma!
Rô Rô?
Eu mesma é ótimo, não? Diga querido.
Feitas as apresentações, a interlocutora solta uma forte gargalhada e pede um tempo para melhor se instalar e falar sobre seu novo trabalho, o novo disco. A dona do outro lado da linha é Angela Rô Rô que, depois de sete anos de fartos goles de chá de sumiço, retorna às prateleiras com seu nono disco solo batizado de Acertei no Milênio (Jam Music, com distribuição da Eldorado). Aos 50 anos, a cantora e compositora carioca está novamente disposta a dar o que falar. O que não é nenhuma novidade já que a mídia sempre encontrou nela matéria-prima necessária para tal embora muitas e muitas vezes tenham sido mais pelos bafafás do que propriamente por sua arte.
Nos anos de ausência, sentiu gostos e desgostos. Em outras palavras, redesenhou a vida dos escombros pessoais pelos quais passou mortes e doenças. Refez-se. Aliás, está refazendo-se. Uma das providências foi dar um tempo no balacobaco e deixar de lado o que ela chama de kit suicídio composto por álcool, cigarros e outros quetais. Até ginástica Rô Rô está fazendo, vejam só! Eu, eu incendiei, detonei muito camarada! E chegou uma hora que o corpo, porra.. Não dava mais pra continuar, admite ela. Não pensem , entretanto, que tais mudanças de hábito trouxeram à tona uma senhora capaz de dar testemunho de fé sobre o milagre que se instaurou. Que nada. Rô Rô fala tão na boa, que consegue fazer graça da própria desgraça.
O disco, pois! Treze músicas, das quais nove inéditas (todas da dita cuja) e quatro regravações. Com produção modesta, mas nem por isso frouxa, Acertei no Milênio tem arranjos do tecladista Ricardo Mac Cord (com quem, aliás, Rô Rô inaugura parceria) e um time enxuto hábeis, porém de músicos: Zé Carlos (violão e guitarra), Jorjão Carvalho (baixo), Xande Figueiredo (bateria), Widor Figueiredo (sopros) e Jaguara (percussão).
O disco é uma mistureba de estilos há boleros, funk, blues e... sambas. Sim, três sambas, um samba bossa nova e um samba-choro. Eis a novidade. Angela Rô Rô ataca de sambistas seja na faixa título (numa referência explícita de Etelvina, acertei no milhar, eternizada por Moreira da Silva), na risível Fila de ex-mulher ou mesmo em Boemia do Sono, um auto-retrato da atual vida pessoal da cantora e compositora Tenho até cara de artista/ pois até o meu dentista prova que eu não fumo mais/ tomo banho todo dia, até no inverno/ quem me viu naquele inferno/ não me reconhece mais, diz um trechinho.
Das regravações, atenção redobrada à versão de Dont let me be misunderstood. Das inéditas, o grande barato do disco é o xote, quase uma toada, Raiado de Amor. Eis a delícia. Eis o prato principal do CD. Assim, na base dos clichês: Acertei no Milhar pode não ser um disco memorável, mas que dá para tirar bons proveitos ah, isso dá. Ora, o retorno, seja lá quais forem as circunstâncias, sempre tem um sabor especial. E mesmo sambando aqui, ali e acolá Angela Rô Rô continua dando suas cacetadas agora no bom sentido. A seguir trechos da entrevista concedida à Folha2
Cê sumiu, hein? O que é que deu?
Não deu... Quer dizer, foram alguns anos de reclusão, de dor, de algumas experiências necessárias na vida da gente... Mamãe, papai faleceram. Eu estava um pouco afastada da minha pessoa... Enfim, vivi tudo isso nesses anos em que não fiz discos. Quer dizer, fiz algumas coisas com o Almir Chediak que sempre me enfiava no estúdios pra gravar maravilhas de faixas para os songbooks do Ary Barroso, Gilberto Gil, Dorival Caymmi. Estive em estúdio ao lado de Helio Delmiro, Simone, com Antonio Adolfo.
Mas você não sentiu vontade de fazer um disco solo?
Lógico!!! Eu devia estar fazendo falta porque as pessoas pediam muito para gravar, mas acontece que... Vou te contar: foi até bom não ter acontecido o disco antes porque eu ia destilar de uma forma muito cruel certas coisas da vida que iriam deixar o Lupicinio Rodrigues, tchê, parecendo Balão Mágico. Tragédia grega iria ser circo popular (risada)
Então quer dizer que esse disco surgiu na hora certa porque você está mais zen, menos amarga ou coisa parecida?
Não é questão de estar amarga porque a carqueja é amarga mas faz bem. Cê me entendeu... O fato é que eu não tenho cronômetro para a vida. Então esse disco saiu na hora que tinha sair agora porque... porque tinha.
Aliás, esse disco surgiu através de convite ou foi na batalha mesmo?
Olha, meu amor, antes de mais nada deixa eu falar uma coisa: de tédio eu não morro. O dia em que eu cantar Gracias a La Vida pode ter certeza que não é deboche. E olha que o tédio dá tapa, dá coice, dá chances, da colher de chá, dá rasteira... Bem, fui assistir ao espetáculo Cazas de Cazuza, no começo do ano passado, e a Jane Duboc veio falar comigo sobre o disco eu pedi calma porque estava fazendo umas coisinhas, estava um pouco insegura.
Insegura?
(debochada) Coisas de mulher, menstruação mental essas coisas... E eu falei para a Jane: pra quê pressa? Só sei que para o disco a Jane, como diretora da Jam Music (gravadora), como diretor da Jam Music, enfiou a mão no bolso do Paulo Amorim (produtor) e mandou ele se coçar para fazer o disco. E agora está todo mundo se coçando: eu, você, todo mundo que ouvir esse disco.
Antes você flertava mais com o jazz, com o rock, com o funk e agora está de namoro com o samba, sambinha, chorinho. O que que deu?
Olha, eu já fiz de tudo.. Fiz incursões pelo bolero, pelas guaranias. E no caso do samba me deu um treco. Fui para Saquarema, na virada de 99 para o ano 2000 e lá era onde mamãe morava e foi lá de onde ela saiu daquele corpo que não prestava.... E eu fraca, fraquinha chorando com esse fato. Parecia que era eu quem estava indo. E ela morrendo... A vida escondeu o fato de mim, todo mundo escondendo o fato de mim... Eu estava mais doente que qualquer câncer.... E ai minha mãe gritou, um dia, gritou comigo: Que é que deu em você, Angela Maria? (era assim mesmo que ela me chamava) e eu chorando e dizendo: Mamãe você nunca disse isso para mim. E ela: Minha filha, vê se não me cansa, minha filha. Dias depois ela estava flanando sobre Saquarema e...
E...
Sei lá, só sei que aquele ambiente todo em Saquarema me lembrou a década de 40 e me lembrou que ela gostava muito da Marília Batista (cantora). E me lembrei de Etelvina, que é daquela época, e estava estourando a virada do tal do milênio. E também estava rolando aquela coisa dos 500 anos do Brasil. E aí pensei: Porra acertei no milênio, ganhei quinhentos anos. Só sei que veio esse samba e vieram outros e pronto.
Nesse disco parece que você está menos passional...
O quê? Estou mais louca do que nunca. Meu amor, a loucura não tem cura.
Tem dois clássicos Please dont let me be... e All of me. Você disse uma vez que gostaria de gravar My Way. Não teria sido a hora exata de gravá-la?
Olha, eu odeio o início dessa música. O Frank Sinatra odiava e também cuspia nessa música. E eu não vou gravar esse treco para as pessoas depois gostarem e eu ter que ficar repetindo... O quê? Logo agora que as coisas estão abertas... Ih, meu amor, antes de a cortina se fechar para mim falta ainda muita batida de mulher, faltam atos e atos. Não quero mais fazer My Way não. Uma vez cantei no karaokê e não gostei não... Essa música assusta criancinha...
Cê tá menos louca?
Não, meu amor!!! Vamos dizer assim: eu não morri. Vou dizer que estou careta? Não é verdade. Sóbria? Sempre fui sóbria e não é parando de beber que você vai atingir alguma sobriedade. Eu apenas não estou colocando mais frituras, evito remédios alopatas. Enfim, parei de de beber e parei de fumar cigarros que era uma coisa absurda.
Não subiu as paredes não?
(séria) Não. Subi as paredes por razões da vida. O negócio começou a melhorar quando larguei o kit suicídio (bebida, cigarro, drogas) e comecei a me movimentar. Foi quando eu comecei a comprar meus pares de tênis, botar roupinhas que por acaso eram de mamãe... Engraçado é que as pessoas acham que essas roupinhas eu comprei para fazer ginástica porque fazer ginástica está na moda...
O quê?! Você está fazendo ginástica?
Um pouquinho... Um aparelho aqui. Outro aparelho ali, uma ergométrica, uma bicicleta na rua, abdominal. Ah, e o remo seco que agora é minha paixão.
Rô Rô quem te viu, quem te vê...
Não, amor, eu continuo a mesma coisa. Eu perdi 36 quilos desde o início do ano passado. Estava com 105 quilos, quero perder um pouco mais... Porra, eu não fazia nada a não ser alterocopismo e arremesso de guimba... (debochada) Sabe, quando baixa a mulher que há em mim eu fico com lentes de aumento procurando cabelo em ovo. Ai, tem pelanca aqui, tem pelanca ali. E eu digo: cretina, você acabou de perder quarenta quilos, tem quase 51 anos e quer o quê.... Mas o negócio é o seguinte: passei por um processo de coisas o que me deixou satisfeita.
Quer dizer, disco novo, vida nova...
Olha, mas tem uma coisa muito importante. Acho que a mágica da vida deveria ter mais lugar-comum para dizer que o milagre é um clichê que a gente tem vergonha de falar dele. Eu não vou ter vergonha porque infelizmente o milagre é uma coisa muito difícil de acontecer. Só sei camarada que estou tendo orgulho de mim porque estou fazendo tudo certinho. Baixou aquela coisa: its now ou never porque senão, meu amor, eu iria parar onde, hein? O importante é que quero me sacudir, tá entendendo. Falta muita coisa para fazer. Tenho que me cuidar... Eu, eu incendiei, eu detonei, detonei, detonei, detonei, detonei, camarada!! E chegou um momento que o corpo, porra... Não dava mais. Só sei que está dando certo. Já tenho músculos. Tenho até distensão muscular.
É a primeira vez que ouço alguém falar com orgulho que tem distensão muscular...
(rindo) Porra, cara... Estava com 105 quilos e não tinha forcas de abrir tampinha de garrafa de plástico de água mineral. Eu estava que não aguentava o peso de um microfone e não estou de brincadeira.
Credo, Ro Ro!
Mas é, cara! Meu bíceps, meus tríceps, essas coisas eram do tamanho de um filezinho de aliche. Enfim, agora tá maravilhoso, tá bonito, tá bacana... Mas vamos falar mais do disco.
Estou tentando, estou tentando...
(debochada) É que eu fico toda entusiasmada quando falo da minha coxa...
As músicas inéditas foram feitas especialmente para disco?
Pois é... foi justamente por isso que pedi um tempo para a Jane Duboc porque eu queria terminar algumas coisas que eu ainda tinha a dizer.
Foram suadas essas músicas? Não caberiam mais músicas inéditas?
Não foram suadas. Foram assim: pumba e saíram essas e só essas.
E shows, como estamos de agenda?
Pois bem. Vamos pegar os óculos da alegria financeira para ver a agenda que não é eletrônica, é de papel. Cara, é uma agenda esotérica.
Esotérica?!
Eu estava num restaurante natural em Ipanema. Estava sem óculos e disse: Cara olha uma agenda com uma mulher nua. Comprei e fui ver depois e era um anjinho, um bebê anjinho, olha só!!. Eu falei pra mim: pô, cara , toma jeito. E eu fiquei sem graça de não levar porque era esotérica, né? (rindo)


