O francês François Kahn tinha apenas 16 anos quando leu pela primeira vez o conto "A Dançarina de Izu" (1926), de Yasunari Kawabata – Prêmio Nobel de Literatura – e nunca mais deixou de pensar naquela história que se passa a caminho de Izu, uma ilha perto de Tóquio, e que fala com tanta propriedade sobre os primeiros sentimentos de amor, tão comuns na adolescência.
Hoje, aos 63 anos, o experiente ator encontrou finalmente uma tradução que achou à altura de uma adaptação para o teatro de um dos textos mais marcantes da sua vida. "Ele é de uma grande poética. Fala da variação de sentimentos do primeiro amor, algo que a maioria de nós reconhecemos. Não sou mais adolescente, mas dentro de mim ainda guardo essas memórias afetivas", fala, com satisfação, do seu monólogo "Viagem a Izu" que apresenta hoje e amanhã, às 20h30, no Teatro Filo. Os ingressos estão esgotados.
Inicialmente concebido para espaços abertos, de preferência jardins e no momento do pôr-do-sol, aqui em Londrina - por uma questão de praticidade - a montagem será apresentada em local fechado. "Gosto de aproveitar a variação da luz do sol durante o espetáculo e a minha dramaturgia preza pela proximidade com o público, por isso elaboro montagens para poucos espectadores", comenta Kahn, referindo-se ao seu projeto teatral denominado "TEATROdaCAMERA". "É no sentido de música de câmara, feita para grupos pequenos, é assim que gosto de trabalhar", resume o ator, que nos últimos anos tem intensificado seus trabalhos na França, Itália e Brasil.
No Brasil, o autor, ator e diretor francês participa de atividades artísticas esporádicas desde 1988 e vem daí seu bom português. Já participou de uma edição anterior do Filo com um outro monólogo e fez uma oficina para atores sobre a obra "O Pequeno Príncipe". Desta vez, além de "Viagem a Izu", Kahn realizou uma oficina para formação e aperfeiçoamento de atores, na Universidade Estadual de Londrina. O foco foi o trabalho de memorização de texto a partir da correspondência entre o escritor russo Anton Tchekhov e sua mulher, Olga Knipper.
Após ter trabalhado com Jersy Grotowski, na Polônia, e com Roberto Bacci, na Itália, ele defende um trabalho autoral, que busque o respeito às próprias referências e características pessoais. "Já tive a oportunidade de apresentar alguns dos meus espetáculos para Grotowski e pude ouvi-lo dizer que gosta de assistir a montagens que se diferenciam das dele. Isso foi bom, pois cada um é de um jeito", observa.

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