ReproduçãoLiv Tyler em ‘‘Beleza Roubada’’: um filme para o prazer dos sentidos Intolerante e cético com os rumos políticos da Itália, há 15 anos Bernardo Bertolucci arrumou as malas e avistou Hollywood no horizonte. Encheu-se de Oscars e dólares com o fascinante ‘‘O Último Imperador’’, de 87, e cismou então que devia concluir uma ‘‘trilogia oriental’’. A segunda parte, ‘‘O Céu que nos Protege’’ (90), árido e mal recebido, é hoje um clássico se comparado ao terceiro movimento, ‘‘O Pequeno Buda’’, de 93. Cansado do auto-exílio e saudoso de sua terra, Bertolucci se armou de um roteiro e deu meia-volta. O reencontro com sua Toscana natal se deu no verão de 95, a estação escolhida para emoldurar ‘‘Beleza Roubada’’(veja programação na página 3), que levou à seleção oficial do Festival de Cannes do ano passado. Longe de ser um ‘‘Último Tango em Paris’’ ou ‘‘O Conformista’’, o filme recoloca o cineasta dentro dos limites daquilo que sabe fazer melhor, isto é, retratar emoções, buscar o prazer, flertar com o melodrama, ‘‘ir mais fundamentalmente em direção ao objeto do desejo’’, na observação do próprio Bertolucci.
Estética do prazerDepois do suicídio de Sara, sua mãe poetisa e de espírito livre, a jovem americana Lucy, de 17 anos, viaja para a Itália onde visita a casa de velhos amigos da mãe. A garota, nos limites entre adolescência e idade adulta, encontra um escritor com leucemia à beira da morte (a quem confessa ser ainda virgem) , um escultor, sua mulher, o casal de filhos liberados e os amigos, além de um velho colecionador de antiguidades e de um amigo da família, sentimental crônico. Durante a permanência na Toscana, Lucy tem dois problemas para tentar resolver: um enigma que envolve a identidade do pai que ainda não conheceu; e deixar que alguém roube sua beleza e sua virgindade, que vem guardando para Nicolo, um rapaz da vizinhança que conheceu há quatro anos. Seja como for, aconteça o que acontecer, a simples presença de Lucy naquele cenário vai causar um efeito profundo nas contidas emoções dos amigos de sua mãe.
Vários são os trunfos de Bertolucci para realizar o bom filme que é ‘‘Beleza Roubada’’. Para começar, a luminosa paisagem do interior da toscana (filmagens na região de Chianti, entre Florença e Siena), captada pelas lentes do diretor de fotografia sensação do momento, o franco-iraniano Darius Khondji, cujos créditos incluem ‘‘Delicatessen’’, ‘‘A Cidade dos Meninos Perdidos’’ e ‘‘Seven’’. A propósito das cores, Bertolucci sugeriu livros sobre Matisse, Derain e Marquet, e que enquanto lesse Khondji ouvisse Mozart. Há ainda um ótimo elenco, à frente Jeremy Irons, o veteraníssimo Jean Marais, Stephania Sandrelli, os ingleses Sinead O’Connor e Donal McCann. E, é claro, a musa de Cannes, a mutante Liv Tyler (fez 18 anos durante as filmagens), por enquanto atriz apenas instintiva apesar de três outros trabalhos anteriores.
O que também faz de ‘‘Beleza Roubada’’ uma obra agradável é uma visão fim de século com uma boa dose de poesia e esperança, curiosamente presentes na civilização ocidental que o diretor havia renegado nos últimos anos. Pode não servir como padrão de comportamento, mas a espécie de comuna onde habitam aqueles prosaicos remanescentes de um passado recente onde amor não rimava com dor é tratada como se ali fosse o último reduto de sobrevivência das artes. E da paixão. Por isso é um filme para ser visto e curtido muito mais com todos os sentidos que são, como se sabe, ladrões da beleza.

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