Ritmo dos índios camaiurás invade o Percpan
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quinta-feira, 25 de março de 1999
Por Mauro Dias Enviado especial 
Salvador, 26 (AE) - Numa canção, Gilberto Gil conta um sonho. Estava num congresso em que se discutiam medidas para fazer o povo mais feliz, o país melhor. Sugeriu que nenhuma terra onde não se trabalhasse duro todos os dias progrediria. Um dos ouvintes reagiu assoviando e deixou a sala. A situação, incômoda, acordou o narrador. Quando foi olhar a rua, viu crianças que cantavam: "Viva o índio do Xingu". O olho do colonizador vê o índio como preguiçoso. Não consegue entender, muito menos respeitar, sua noção particular de tempo. A canção serviu para chamar ao palco do Teatro Castro Alves, onde está sendo realizada a 6ª edição do Panorama Percussivo Mundial - Percpan -, os índios camaiurás, do Xingu. Eles foram uma das atrações da noite de quinta-feira, a segunda do festival.
Gil chamou-os cantando. Egberto Gismonti disse do pajé Sapaim, líder do grupo camaiurá: "Ele é o meu mentor musical". A contagem do tempo na música dos índios do Xingu nada tem a ver com a da música ocidental. Sua métrica é outra, sua lógica é outra. Evoca, de acordo com Sapaim, a natureza, as árvores, a floresta. Não é ritual, é sagrada. Soprando uma espécie de flauta quádrupla, como aquelas andinas, mas com ressonâncias de palhetas, o músico do interior do Rio, descendente de árabes, construiu acordes que traduziam a música que Sapaim tocava em sua flauta de madeira.
Quem abriu a noite foram os índios norte-americanos do grupo Silvercloud Singers, representantes de dez tribos diferentes. A música deles também soa peculiar. O Percpan teve ainda o trio Techno Suggestion, com Naná Vasconcelos, o tecladista e clarinetista norte-americano Leon Gruenbaum e o percussionista brasileiro Cyro Baptista; o paulista Dalga Larrondo, que abriu o primeiro Percpan e apresentou uma curiosa, divertida, idéia de teatro musical percussivo; os mais de 20 músicos, dançarinos, dançarinas, cantores e cantoras do Evocação
de Pernambuco, com seus caboclinhos, cavalos marinhos, frevos, cirandas e maracatus; e os tambores sagrados do Burundi, com espetáculo enérgico, vibrante, contagiante. O festival encerra-se amanhã (27), com todas as atrações das noites anteriores - são mais de 200 músicos - em cena, numa grande confraternização.


