Risos e lágrimas com 'O Pior Vizinho do Mundo'
Em cartaz em Londrina, essa aventura tem tudo para agradar o público, alternando momentos sérios e cômicos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de fevereiro de 2023
Em cartaz em Londrina, essa aventura tem tudo para agradar o público, alternando momentos sérios e cômicos
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/Especial para a FOLHA 

Como fonte primária, há o filme sueco, “Um Homem Chamado Ove” original, de 2015, baseado em romance best-seller de Fredrik Backman, e que ganhou duas indicações ao Oscar – em Londrina foi exibido em 2017 no cine Com-Tour/UEL.
A refilmagem que está em cartaz na cidade conta certamente com o carisma de Tom Hanks, que está dando uma mãozinha para aumentar a visibilidade de “O Pior Vizinho do Mundo”, título francamente apelativo para “A Man Called Otto”.
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Otto (Hanks) vive sozinho desde a morte da esposa, rosnando para qualquer um que entre em sua órbita. Perpetuamente irritável e silenciosamente inconsolável, ele decidiu se matar. Mas a chegada ao bairro de uma família hispânica, feliz, barulhenta, simpática, com a mulher, Marisol (Mariana Trevino, a segunda melhor oferta do filme), já ameaçadoramente grávida, vai fornecer ao personagem todo aquele material de princípios e contradições que é o forte do roteiro. A narrativa faz uso de um sentido suave de humor e um profundo sentimentalismo, um pouco reforçados pela amargura que o personagem carrega; ele nos fala do seu passado em vários flashbacks e da mudança que se opera ao longo das quase duas horas que duram sua história. O cinéfilo que lembrou daquele James Stewart teimoso, com quem era preciso argumentar e que passava longe de qualquer sinal de indignidade, não se enganou: como Stewart, Tom Hanks só se sente confortável dentro da trincheira da bondade. Ou quem sabe apenas o espectador se sente confortável ao vê-lo ali...
Enquanto falham as várias tentativas de suicídio, Otto não quer nada com esta família jubilosa que se recusa a ser excluída, forçando o viúvo taciturno a abraçar aos poucos o mundo ao redor. O diretor, Marc Forster, que fez um peculiar James Bond (“Quantum of Solace”), não precisa de muito esforço para explicar quem é Otto Anderson, pois Tom Hanks dá logo conta do recado com a competência de sempre: ele é um viúvo quase velho, com evidentes sintomas de solidão e misantropia, e com um senso de ordem e regulamentação extravagante e irritante (também cômico) para os vizinhos de sua comunidade.

Auxiliado pela trilha sonora ornamental de Thomas Newman, Forster criou um filme agradável que não é nada diferente da adaptação européia de 2015, exceto pelo transplante da ação da Suécia para a Pensilvânia. Só que as imagens agora são descaradas em sua ambição de gerar alguns risos e copiosas lágrimas e encorajar o público a valorizar o fato de estar vivo, mesmo quando os tempos são difíceis. E, como no filme anterior, “A Man Called Otto” nos apresenta um protagonista que deveria ser um rabugento frio, mas é, na verdade, alguém derrotado pelas adversidades, tentando encarar as tragédias pelas quais passou. Hanks interpretou principalmente personagens idealistas e generosos, ocasionalmente subvertendo sua imagem por meio de representações mais fundamentadas em filmes como “Capitão Phillips”. Por isso é inicialmente gratificante vê-lo como o carrancudo e miserável Otto. Mas o problema é que rapidamente se torna aparente que a raiva de Otto é apenas uma fachada, e que a imigrante Marisol e sua família vivaz vão tirá-lo de seu marasmo. Hanks realmente não investe na escuridão de seu personagem; então é apenas uma questão de quanto tempo até Otto baixar a guarda e mostrar seu lado mais suave.
A facilidade dessa transformação impede que o filme seja particularmente inspirador ou comovente, e portanto cem por cento crível. Além disso, Forster tem dificuldade em equilibrar os elementos cômicos do roteiro com os momentos mais sérios em que esse viúvo chega perto de acabar com sua vida. Hanks é um ator dramático subestimado, mas essas sequências são tão insubstanciais que nunca parece que Otto está nas profundezas do desespero. Consequentemente, o filme corre o risco de diminuir a angústia da depressão suicida, reduzindo-a a um enredo fofinho. Sempre que a imagem toca em emoções cruas, ela rapidamente recua para sentimentos seguros e reconfortantes, para que os espectadores nunca precisem duvidar do inevitável final feliz. E para quem suspeitou, vale confirmar: o Otto dos flashbacks é vivido por Truman, filho de Tom Hanks.
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