Colocou a farda na bolsa, fechou o ziper. Deu um beijo no rosto da filha, acariciou o pequeno no colo da mulher. A expressão fechada, mais uma dura noite por vir. O interior da casa, aquecido pelo vapor das panelas ao fogão, apresentava-se escuro, mesmo com as luzes acesas. Nuvens escuras tomavam o céu, o entardecer não parecia o mesmo de sempre. Deixando lágrimas para trás, partiu.
Os primeiros pingos de chuva já desprendiam-se das nuvens acinzentadas. Descendo a ladeira, assistia à cena rotineira. A noite perigosa da favela aproximava-se e as pessoas iam se recolhendo, entrando para suas casas simples. Era perigoso sair pelas ruas sem a luz do sol a ilumuninar os cantos e becos do morro.
Já um pouco afastado de casa, passando por um sujo boteco, percebeu que estava sendo observado. Dois homens, um sentado a uma mesa e o outro em pé, seguiram-no com os olhos. Disfarçou, achou melhor não olhar para os sujeitos. Continuou.
Começou a lembrar-se do que o delegado sempre dizia. Era perigoso que alguém de sua vizinhança soubesse que era policial. Era um risco para ele, mas principalmente para a família. Sempre se lembrava disso ao sair para o trabalho. Tinha medo, porém era muito discreto.
A chuva já começava a cair forte quando chegou ao pé do morro. Esperou por algum tempo o ônibus, que logo apontou na rua. Entrou, pagou a passagem e sentou-se. Lentamente, o ônibus rodava pelas ruas da cidade. Observava o trânsito pela janela, os carros em alta velocidade cruzando as avenidas. Deu uma rápida olhada para trás, e algo lhe chamou a atenção. Voltou a olhar com o canto dos olhos sobre o ombro. Percebeu que, assentos atrás, do outro lado do corredor, estavam os dois homens que vira momentos atrás, quando descia o morro. Em frações de segundos uma lembrança tomou-lhe a mente. Não seriam aqueles dois que prendera meses atrás por assalto a mão armada? Sim. Seu segredo havia sido descoberto.
Os primeiros raios de sol denunciavam o início de um novo dia. A mulher, já acordada, preparava o café da manhã. As crianças ainda dormiam. O olhar apreensivo, fixo à janela, à procura da figura do marido subindo as ladeiras do morro.
O dia findou-se. O café esfriou à mesa.

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