Rio, 13 (AE) - Aos trancos e barrancos, 1999 será lembrado como o ano em que o público brasileiro terá visto o maior número de obras de Pablo Picasso. Apesar da dificuldade de patrocínio e da alta do dólar, estão confirmadas duas exposições do espanhol que revolucionou a arte no século 20 estética e comercialmente. No dia 27, será aberta no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio, a mostra "Picasso, Anos de Guerra", com a produção do artista nos anos 20, 30 e 40. Em agosto, será a vez das cerâmicas da coleção de Bernardo Picasso, neto do artista, na Casa França Brasil, também no Rio.
A realização das mostras correu riscos por causa da crise econômica que fez os empresários recolherem os trocados que destinam às leis de incentivo cultural. Foi isso que levou o Consulado da França a adiar a exposição de cerâmica, prevista inicialmente para junho, marcada para este mês e, finalmente, confirmada para setembro. "Eu também achei que faria antes a mostra dos anos entre guerra", afirma Romaric Buel, que investiu R$ 2,5 milhões para trazer ao Brasil "Picasso, Anos de Guerra". Vale o esforço, pela importância do acervo.
"Picasso, Anos de Guerra", tem 25 telas, 40 desenhos, outro tanto de gravuras, três esculturas e fotos dele trabalhando, tudo vindo do Museu Picasso, em Paris. "É um período de sofrimento para o artista, que vê a Espanha envolvida numa guerra fratricida, que levará a uma ditadura, mas é também uma época em que ele viveu grandes paixões". A mostra de Picasso terá o didatismo e a grandiosidade que tiveram as de Rodin (96) e Monet (97), organizadas por Buel. Os módulos serão distribuídos por suporte, começando com os desenhos, passando à gravura (incluindo duas chapas originais) e chegando à pintura e escultura. Haverá também uma ala "Picasso no Brasil", com as obras pertencentes a coleções brasileiras.
O andar terreo terá salões para aulas, palestras e filmes sobre o artista, além de uma butique onde serão vendidos produtos relativos à exposição. "Tudo é supervisionado pela família de Picasso", conta Buel. O acervo chega ao País em três viagens e o seguro deve ser feito no Brasil e no exterior. "É complicado, mas temos ótimos parceiros aqui e na França". Em setembro, "Picasso, Anos de Guerra" vai para o Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde fica até novembro.
No caso das cerâmicas, essas dificuldades são agravadas pela fragilidade do material. Em abriu, Claire Guerin, assistente de Bernardo Picasso, esteve no Rio para aprovar a Casa França Brasil como local de exposição. "São peças de barro e argila e é preciso ter no ambiente o nível adequado de luz, umidade e até vibração", disse ela na ocasião. Mas o próprio neto do artista chamou a atenção para a "importância de levar essa obra a quem não tem contato com ela".
Picasso produziu as cerâmicas após a 2.ª Guerra, quando passou longos períodos na Provence, sul da França, até os anos 60. Foram mais de 4 mil peças em que ele reaproveitava materiais e motivos (geralmente naturezas-mortas, mulheres e palhaços) e misturava técnicas. Aqui serão mostrados 93 objetos entre pratos
azulejos e vasos. Parte desta mostra esteve antes na Royal Academy, em Londres, e no Metropolitan Museum, em Nova York e, depois do Rio, deve ir também para São Paulo.

mockup