Rio tem drama patriótico de Verdi
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segunda-feira, 01 de novembro de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 02 (AE) - É operão para ninguém botar defeito: 190 cantores no palco, cenários monumentais de templos babilônicos e hebreus cantando o "Va Pensiero", coro que até mesmo quem desconhece o básico de música erudita é capaz de assobiar, emocionado. Estréia amanhã, no Municipal do Rio, "Nabucco", ópera de Verdi, com direção cênica de Iacov Hillel, cenários de Hélio Eichbauer, figurinos de Paola Bregni e regência do argentino Reinaldo Censabella (do Teatro Colón, de Buenos Aires), à frente da Orquestra Sinfônica Municipal. A temporada continua na sexta, no domingo e na segunda-feira, com ingressos entre R$ 15,00 e R$ 50,00. Para nós, pobres paulistanos carentes de canto, pode ser a última chance do século de ouvir boa música lírica.
No elenco, a soprano inglesa Susan Stracey (Abigail), o barítono Giancarlo Pasquetto (Nabucco), o baixo italiano Carlo Striuli (Zaccaria) e os tenores Richard Bauer e Ricardo Tutman, revezando-se como Ismael. "Trabalhei a serviço da música e do enredo e, para mim, Nabucco constrói-se sobre a luta pelo poder e a angústia das perdas transformada em morte e loucura, o sentimento que Verdi derramou nessa ópera", explica o regiesseur, Iacov Hillel. "É uma guerra entre duas culturas extraordinárias, colocando em cena duas das maravilhas do mundo antigo, os jardins da Babilônia e o templo de Salomão", reforça Eichbauer.
A ópera, em quatro atos, com libreto de Solera, foi o primeiro grande sucesso de Verdi, transformando-o, da noite para o dia, no queridinho do público italiano e numa espécie de guru artístico e político dos italianos, dominados pelos austríacos. Falando sobre opressão (no caso, dos hebreus sob o jugo assírio)
liberdades voadoras em asas de ouro, em inimigos convertidos em churrasco pela ira divina, tudo envolto em ritmos marcados (apelidada, maldosamente por alguns, como a fase banda de Verdi) e coros patrióticos, "Nabucco" logo se converte em ópera do Rissorgimento e dos ideais da unificação italiana. Em breve, o nome Verdi seria pichado nas paredes como acróstico secreto de "Vitório Emanuele, rei da Itália".
Não é uma de suas obras mais sutis, embora seja inegável o trabalho de caracterização psicológica dos personagens. Ainda assim, o grande destaque da ópera são os coros, em geral, acompanhados pelas vozes firmes de baixos e barítonos, uma preferência vocal verdiana que não o deixaria até o fim. O coro do terceiro ato, o "Va Pensiero", aliás, perseguiu o compositor até a morte. No dia de seu enterro, acompanhado por uma multidão, apesar da proibição deixada por Verdi de qualquer música em seu funeral, o coro foi surgindo aos poucos, cantado pelos admiradores, até tomar conta da homenagem. "Coro que Verdi, 60 anos, tornara a voz da esperança e do consolo para o seu povo", anotou o escritor Franz Werfel.
O libreto de "Nabucco" chegou às suas mãos num momento de desespero. Em 1839, decidido a fixar-se em Milão, teve "Oberto" aceita pelo Scala e bem-recebida pelo público. Mas "Un Giorno de Regno", sua ópera seguinte, encomendada pelo teatro por causa do sucesso inicial, foi um fracasso estrondoso. Difícil culpar o compositor por não ter senso de humor para escrever uma comédia de bom gosto após ter perdido a mulher durante a composição. Já estava decidido a abandonar a música quando leu o libreto de Solera sobre a vida de Nabucodonosor e reconheceu, de imediato, as possibilidades de tocar o coração de seus conterrâneos com o tema dos escravos cativos lutando pela liberdade.
Virou famoso em toda a Europa e transformou o tema patriótico e as melodias, cantáveis e heróicas, em características de sua produção por longos anos, abandonando-as apenas quando se sentiu maduro o bastante para trocar pátria por dramas familiares (ainda assim, em registros bastante próximos). A história de Nabucco, rocambolesca como exigia a época, é bastante próxima de "Aída" (com suas filhas de escrava e traições de homens bons, mas apaixonados). Num primeiro momento, o trunfo está com os hebreus, que mantêm cativas as filhas de Nabucco, Fenena (que arrasta sua asa por Ismael, o sobrinho do rei hebreu) e Abigail.
Quando o assírio vence, Ismael é transformado em traidor
mas não nega seu amor por Fenena. Abigail, mentindo ter o rei babilônio morrido em batalha, enciumada, planeja assumir o trono
justiçar os hebreus e a irmã. Ao fim, Nabucco rende-se ao seus cativos, ordena a destruição do ídolo Baal e assume o único Deus
Jeová, enquanto Abigail (em verdade, filha de uma escrava) morre envenenada. Ou algo assim.


