Rio ganha guia de turismo voltado para segmento gay
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quarta-feira, 08 de novembro de 2006
Fabiana Cimieri<br> Agência Estado 
Rio - Apesar de ser um dos destinos turísticos mais procurados pelos gays na América Latina, o Rio de Janeiro oferece poucas opções segmentadas para o público GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros). Ao contrário do que acontece em cidades como Nova York, Londres, Viena e São Francisco, a Secretaria Municipal de Turismo ainda não possui uma política diferenciada para atrair essas pessoas, que consomem 47% a mais do que o turista convencional. Mas já apóia algumas iniciativas de mapeamento desse setor.
Com o apoio da Riotur, a agência de viagens Rio G lançou o primeiro guia de turismo gay, o Rio G Maps, com mapas de pontos turísticos e de azaração, além de dicas de comportamento e de segurança. Segundo a publicação, em Copacabana e Ipanema, na zona sul, o turista homossexual ''terá o melhor da noite e da pegação'', além ''das belezas naturais que desfilam pela famosa Farme de Amoedo, uma das ruas gays de Ipanema''. A quadra entre essa rua e a Teixeira de Melo e o trecho da praia em frente a elas é apelidado de Quartier Gay, por causa dos estabelecimentos comerciais - bares, restaurantes e lojas - voltados ao público homossexual.
Uma pesquisa feita no início do ano pelo Centro de Pesquisas e Estudos do Turismo da UniverCidade, em parceria com a Riotur, entrevistou 700 gays que estavam na cidade para tentar traçar o perfil desse tipo de turista. Mais da metade (55%) possui nível superior, 75% são do sexo masculino e 71% têm até 35 anos. A maioria vem ao Rio pela primeira vez e escolheu a cidade por causa da população sem preconceito (30%), da beleza do homem carioca (25%) e das belezas naturais (19%). Para eles, o ponto positivo da cidade é a gastronomia (28%), comércio (20%) e, ao contrário do senso comum, segurança (18%). O negativo é a falta de informação turística segmentada.
Foi de olho nesse mercado em potencial que os empresários Rostand Machado e Eduardo Lima abriram a Rio G, em março do ano passado. ''É um mercado que o pessoal tem receio de investir e que necessita de um tratamento diferenciado do público tradicional'', disse Machado. ''Estamos indo bem melhor do que o esperado.''
Para o secretário municipal de Turismo, Rubem Medina, o segmento GLBT tem ''importância fundamental''. Ele não descarta que, em um futuro próximo, a prefeitura lance ações próprias de marketing segmentado. Mas disse que o que existe hoje é o apoio institucional da Riotur a projetos de terceiros. ''O carnaval é o maior atrativo para eles, seguido do réveillon. Com a inauguração da Cidade do Samba, teremos carnaval o ano inteiro e com certeza a procura irá aumentar'', disse.
O inglês Jonathan Michck, de 35 anos, e o italiano Federico Cighll, 37, namorados há dois anos, elogiaram a hospitalidade do carioca, que classificaram como ''amigável'', mesmo em bares e restaurantes convencionais. Mas reclamaram da ausência de estabelecimentos segmentados. ''Aqui tem muitas saunas e nenhum restaurante. Tinha que ser equilibrado, ter um pouco de cada, porque nós que estamos juntos não temos muito o que fazer'', disse Michck, na Praia de Ipanema diante da Rua Farme de Amoedo, onde pegavam sol numa quarta-feira à tarde. ''O turismo sexual faz parte, não adianta esconder, mas é saudável, sem exploração de menores ou qualquer outra ilegalidade'', disse o empresário Machado.
O comerciante argentino Fernando Royo, de 47, dono de uma loja de produtos para o público gay concorda com o casal europeu. ''Em termos de segmentação estamos atrás de São Paulo.''
O Rio G Maps, primeiro guia de turismo gay do Estado, tem um capítulo dedicado a dicas de segurança. Segundo o guia, apesar de o Rio ser uma cidade acostumada com os gays, o viajante deve evitar demonstrações de carinho e beijos em lugares convencionais. Algumas dicas servem a qualquer cidadão, independentemente da opção sexual. Outras são específicas a esse público, como a prevenção ao golpe Boa Noite Cinderela. ''Nunca aceite bebida de estranhos nas boates e nunca deixe-a fora de vista. O golpe Boa Noite Cinderela ainda existe e consiste em colocar remédio para dormir na bebida, deixar você grogue e roubar tudo o que possui. Geralmente a pessoa que colocou a droga na bebida tenta 'ajudar', o levando para o hotel. Hoje estão colocando a droga em chicletes'', avisa o guia.
Apesar de ressaltar que a violência no Rio é igual à de qualquer outra cidade grande no mundo, a publicação dá conselhos subjetivos, como o de que o turista ande naturalmente pelas ruas: ''Caminhar com ar de vítima é o primeiro passo para se tornar uma'', diz. Não use jóias nem relógios: ''Aqui é um excelente lugar para comprar jóias, mas não para exibi-las.'' O guia também pede que o turista ''tente não parecer tão turista'' e mantenha sua máquina fotográfica disfarçada, para evitar ser roubado. Avisa aos turistas, gays ou heterossexuais, que jamais entrem numa favela por curiosidade e que procurem sentar sempre na parte da frente do ônibus.


