Rio, 17 (AE) - O móvel brasileiro já tem história que reflete sobre os costumes e hábitos dos habitantes nestes cinco séculos. Com essa idéia, o arquiteto Chicô Gouveia e o antiquário Arnaldo Danemberg organizaram a mostra "Paralelos - Mobiliário Histórico Brasileiro", que começa amanhã(18) e fica até o dia 3 de outubro no Rio Designer Center. São 120 móveis de sala e quarto feitos no Brasil do fim do século 16 até hoje, mas os dois curadores preferiram comparar a utilização dos móveis em vez de organizá-los por ordem cronológica.
"O uso de um móvel determina sua forma", explica Gouveia, curador da parte dedicada ao século 20. "Do século 16 ao 19, houve pouca evolução, até porque não havia fábricas de móveis nem designers, mas artesãos e oficinas que atendiam aos compradores." Segundo Gouveia, apenas no início do século 20 aparecem duas fábricas, a Leandro Martins e a Laubish & Hish, que copiavam móveis importados. "O designer brasileiro surge nos anos 50, com as peças de Francisco Tenreiro e fábricas como a Oca e LAtelier."
Para Danemberg, a partir do uso dos móveis chega-se à evolução dos hábitos brasileiros e até da hierarquia social. "Se hoje a funcionalidade e o conforto são requisitos fundamentais, isso não acontecia até este século", explica. "Os móveis do Império e do período Colonial tinham função estética e de ostentação de poder e, por isso, as cadeiras eram altas, impomentes, mas nem sempre confortáveis para quem se senta nelas."
A mostra foi dividida em cinco módulos, conforme a utilização dos móveis através dos tempos. "A idéia é realmente comparar essa evolução, até porque há móveis que deixaram de ser fabricados, como cômodas e alguns leitos para se fazer a sesta, e outros que só aparecem no século 20, como os porta-discos e os porta-CDs", comenta Gouveia. "Os móveis antigos hoje têm função mais estética que utilitária", completa Danemberb. "As cômodas, antes indispensáveis nos quartos, são hoje móveis de sala e estão lá apenas para serem admiradas."
Sem patrocínio e somente com o apoio do Rio Designer Center, Gouveia e Danemberg conseguiram juntar algumas preciosidades vindas de museus, antiquários e coleções particulares (no caso dos móveis antigos) ou das próprias fábricas. O berço que embalou a princesa Isabel, por exemplo, poderá ser comparado com um moderno, de linhas retas, de Alberto Reis. Um preguiceiro do século 18 (espécie de cama para a sesta, que ficava na sala) estará ao lado da chaise longue de Oscar Niemeyer, da década de 50.
Importados inicialmente de Portugal pelas famílias ricas
depois feitos no Brasil com madeiras nacionais, os móveis brasileiros não são descendentes dos portugueses, na opinião de Danemberg. "São primos distantes, porque são mais austeros, mas também mais exuberantes, por influência dos negros, que trabalhavam na sua confecção."

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