A vegetação rasteira cobre o solo empedrado, às vezes arenoso, enquanto o ônibus desliza deserto adentro, rumo ao Vale do Colca, a 190 quilômetros de Arequipa. Logo ao sair da cidade, a paisagem impressiona. No meio da mescla de areia e pedra, vales irrigados são responsáveis pelo colorido na região.
Com cerca de 30 quilômetros de viagem, o asfalto desaparece. A estrada continua com variações de solo, penetrando em área de proteção ambiental. Com um pouco de sorte e boa vontade do motorista, não é difícil avistar as vicunhas, uma espécie de camelo silvestre da América do Sul, responsável por uma fibra finíssima que é transformada em vestimentas de qualidade.
No deserto também se encontram alguns guanacos, parentes da vicunha, mais difíceis de serem vistos. A região árida também abriga outros parentes do camelo: a alpaca, que possui lã cobiçada e carne deliciosa, e a lhama, utilizada como besta de carga.
Foto: Ranulfo PedreiroA alpaca e o deserto: lã cobiçada, carne deliciosa e cena comum O deserto é marca registrada do lugarA caça à vicunha é proibida, mas os índios da região podem aprisioná-las para extrair a lã. Eles não maltratam os animais, soltando-os após a operação. A coleta ocorre cerca de duas vezes ao ano, e o dinheiro é revertido para a comunidade. Os índios são os grandes vigilantes das áreas protegidas, e não hesitam em enfrentar caçadores clandestinos.
A fauna do deserto inclui ainda escorpiões - que não chegam a ser uma ameaça, segundo os guias locais - serpentes, lagartos, vizcachas - espécie de coelho com cauda alongada - pumas, gatos monteses, veados e aguiluchos, parentes das águias. Alguns desses animais podem ser observados na beira da estrada. Os aguiluchos são aprisionados com frequência pelos nativos para serem exibidos às máquinas fotográficas. As fotos saem em torno de 0,50 sol.
A caminho do Colca, as formações rochosas de origem vulcânica se destacam em meio ao deserto. A 130 quilômetros de Arequipa, em Callalli, povoado com 3 mil habitantes, está o templo de Santo Antônio de Pádua, construído no início do século 18, além de formações vulcânicas que se assemelham a um castelo.
Foto: Ranulfo PedreiroCanyon: entre os maiores do mundoPouco antes de Callalli surgem as Ventanas do Colca, duas imensas rochas que anunciam o início do Vale, situado em um planalto interandino a cerca de 4 mil metros de altitude. Graças ao Rio Colca, o vale muda a paisagem do deserto, e o verde volta a aparecer, acompanhado de inúmeras ruínas pré-incaicas.
As mais comuns são terraças construídas nas encostas das montanhas que servem tanto para contenção de desabamentos como para cultivo. Um sistema de irrigação pré-incaico, que ainda é utilizado pelos camponeses, ameniza a aridez da região e garante a produção de maiz, trigo, cactus, coca e outros produtos.
No Vale do Colca, o lugar indicado para passar a noite é Chivay, um povoado a 3.651 metros de altitude. Embora seja capital da província de Cayama, Chivay possui problemas de infra-estrutura. A energia elétrica vem de geradores que começam a funcionar apenas à noite. O incômodo compensa. A falta de luz realça o pôr-do-sol andino.
No povoado, as alterações de temperatura chamam a atenção. Durante o dia, gira em torno de 22 graus, mas, à noite, pode chegar até 5 graus durante a primavera. Protetores solares e labiais são importantes devido à intensidade do sol.
Foto: Ranulfo PedreiroO deserto: belezas e mistérios no caminho de Machu PicchuCom a nascente localizada próxima a Arequipa, o Rio Colca é um dos poucos que seguem para o Pacífico, após desaguar no Rio Camaná. Graças a uma série de fatores - erosão, levantamento e formação da Cordilheira, movimentos sísmicos e grande atividade orgânica - o Colca formou um grande canyon, que em seu pontos mais altos chega a escarpas de 3.400 metros de altura.
Um dos melhores lugares para contemplar a formação é o mirante Cruz del Condor, onde a altura da escarpa chega a 1.200 metros. De lá, pode-se observar os cumes nevados da Cordilheira. O local é habitado por condores que fazem raras aparições. Com uma envergadura de três metros, a ave é importante para a cultura peruana e deu origem a diversas lendas. Para os Incas, por exemplo, o condor simbolizava o domínio do céu.
Não se pode exigir muito conforto para chegar até o mirante. O passeio pelo Vale do Colca é indicado para turistas que preferem belas paisagens a poltronas reclináveis. A estrada de chão obriga o ônibus a viajar em baixa velocidade, enquanto a poeira do deserto impregna o ar. Mas o esforço compensa. A imagem onipresente do deserto revela segredos de povos que dominaram sua aridez, reutilizaram antigos sistemas de irrigação e cultivaram as áreas verdes que se destacam no horizonte acinzentado.Foto: Ranulfo PedreiroVale do Colca: formações rochosas de origem vulcânica em meio ao desertoRanulfo Pedreiro

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