Rio de histórias
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de março de 2016
Geraldo Bessa<br> TV Press ALEX FRANCISCO 
Retratar os dilemas e as sagas familiares às margens do Rio São Francisco é um projeto antigo de Benedito Ruy Barbosa. Autor intimamente ligado às questões sociais e agrárias, ele visitou pela primeira vez a região que ambienta a trama de "Velho Chico" quando era repórter do jornal carioca "A Última Hora", em meados dos anos 1970. Ao longo das décadas seguintes, continuou a visitar cidades banhadas pelas águas do São Francisco e acompanhou a poluição e a aridez que assola um dos principais símbolos do Nordeste. "Eu tinha mania de viajar pelo Brasil para descobrir novas pautas e, de quebra, conhecer melhor nossas histórias e nossa gente. Foi triste ver o que aconteceu ao longo do tempo. Esse trabalho é minha homenagem ao rio e sua população", conta o autor, sobre a novela que estreia na Globo amanhã.
Cerca de dez anos separam a entrega da sinopse de "Velho Chico" à Globo e o "sinal verde" da emissora para iniciar a produção. Pensado como uma minissérie, o projeto chegaria ao ar neste ano de 2016 como uma novela mais curta na faixa das seis. No entanto, a "crise" enfrentada pelo setor de teledramaturgia da emissora com seus folhetins realistas e contemporâneos recolocaram Benedito e sua produção no páreo para o horário das nove. E na companhia fiel de Luiz Fernando Carvalho, o autor surge como supervisor do texto, agora assinado por Edmara e Bruno Barbosa, filha e neto de Benedito. "Essa novela se propõe a um resgate de algo meio esquecido nessa faixa de novelas: o amor. É uma saga familiar repleta de surpresas e emoções, onde o rio é também um personagem. É um trabalho carregado de brasilidade em um momento em que é muito oportuno mostrar o orgulho de ser brasileiro", conceitua Edmara
Dividida em duas fases, uma ambientada no final dos anos 1960 e que tem previsão de duração de 25 capítulos e a outra nos dias atuais, "Velho Chico" começa retratando as disputas por terras e poder político na cidade de Grotas do São Francisco. De um lado está o poderoso e ignorante Coronel Jacinto, de Tarcísio Meira, dono de grande parte das fazendas da região e comandante da política local. Na outra ponta reside o generoso e correto Capitão Ernesto, de Rodrigo Lombardi, dono de terras vizinhas férteis e que despertam a cobiça de Jacinto. A luta entre os dois acaba atravessando gerações e se centra na figura forte e errante de Afrânio, papel defendido por Rodrigo Santoro na primeira fase e Antonio Fagundes na segunda. "É aquele tipo de obra que a gente se apaixona mais a cada nova cena. É tudo feito com muito cuidado, do texto aos mínimos detalhes técnicos. Afrânio é um homem que respeita seus instintos e sua tradição. São muitos tipos em um único personagem", explica Santoro.
A questão agrária é predominante em "Velho Chico", mas o protagonismo é mesmo das grandes histórias de amor. Quando jovem, Afrânio se apaixona pela cantora Iolanda, papel vivido por Carol Castro e Christiane Torloni, mas acaba se casando com a inocente Leonor, personagem defendida pela estreante Marina Nery. "Estava com saudade de ver esse amor exacerbado das novelas rurais no horário mais nobre da emissora. Esse é aquele tipo de novela que, se eu não tivesse sido escalado, iria me convidar para ao menos uma 'ponta'", ressalta Fagundes. A devoção ao estilo rural de Benedito e, sobretudo, à direção quase artesanal de Luiz Fernando Carvalho domina todo o elenco, composto por nomes fortes do "casting" da emissora, como Camila Pitanga, Marcos Palmeira, Dira Paes e Marcelo Serrado. Mas também corre lá seus riscos com a escalação de "novatos" como Lucy Alves, Lee Taylor, Gabriel Leone e Giullia Buscacio para papéis importantes da trama. "Os testes foram exaustivos. Mas fiz questão de acompanhar tudo e ver quem realmente se encaixava com o personagem e a proposta da novela. Não é uma produção fácil de se fazer. Exige esmero e dedicação", explica o diretor.


