Rio abre na quinta mostra com cinco mil gravuras
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sábado, 28 de agosto de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 29 (AE) - A gravura vem sendo há séculos o meio mais democrático de difusão da arte. A partir de quinta-feira, a Mostra Rio Gravura, promovida pela prefeitura da cidade, instituições públicas e privadas, vai reunir mais de 5 mil obras de alguns dos maiores criadores que trabalharam com reprodução de imagem, de Rembrandt a Chuck Close. São 70 exposições em 50 diferentes lugares, entre museus, centros culturais e escolas. A maior mostra de gravura já realizada no País chega a São Paulo no fim do ano, numa versão reduzida do evento carioca, que vai até outubro.
Reprodução de uma experiência similar francesa, Mois de la Stampe, que ocupa museus, galerias e ateliês de artistas sempre no mês de julho, a Mostra Rio Gravura, coordenada pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio por intermédio do Instituto Municipal de Arte e Cultura (RioArte), pretende ampliar o escopo de seu modelo francês. Idealizada pela mulher do prefeito Luiz Paulo Conde, Rizza Conde, a mostra revela não só o que está sendo produzido por artistas contemporâneos como coloca à disposição do público exemplares raros - sendo o principal deles uma série de gravuras do alemão Albrecht Durer trazida pela Família Real para o Brasil em 1808.
Ao lado de mestres do século 18 como Piranesi, o homem que projetava apavorantes cárceres, figuram na mostra grandes nomes da arte moderna como Miró e Chagall, além do maior gravador brasileiro, Oswaldo Goeldi, e artistas brasileiros mais conhecidos por sua pintura (caso de Iberê Camargo) ou escultura (Tunga). Grandes coleções, como a de Mônica e George Kornis e a de José Mindlin, foram revisitadas pelos organizadores da mostra
que tem como curador o gravador Rubem Grilo. Só do acervo do Museu Nacional de Belas Artes foram analisadas mais de 10 mil gravuras.
É no Museu de Belas-Artes (Av. Rio Branco, 199, centro do Rio) que se pode ver, por exemplo, uma das gravuras mais conhecidas do mestre do Renascimento alemão, Durer, O Cavaleiro, a Morte e o Diabo (1513). Lá também estão cinco séculos de gravura européia representados por obras da escolas italiana (Mantegna, Tiepolo, Carracci), francesa (Géricault, Delacroix, Daumier) e espanhola (Goya), além de artistas que representam os principais movimentos deste século, do surrealismo (Dalí) ao expressionismo (Kathe Kollwitz).
Uma parada obrigatória na mostra carioca de gravura é o Centro de Arquitetura e Urbanismo (Rua São Clemente, 360, Botafogo), que, a partir do dia 11, exibe 79 pranchas do gravador, arquiteto e arqueólogo italiano Giovanni Piranesi (1720-1778). Piranesi exerceu grande influência sobre artistas geniais, sendo impossível imaginar os labirintos de Escher sem pensar nos cárceres do italiano, que estudou e reproduziu ruínas da antiga Roma.
Pulando mais de dois séculos, o visitante poderá ver, já no primeira dia da mostra, no Instituto Brasil-Estados Unidos (Av. Nossa Senhora de Copacabana, 690), três expoentes da gravura norte-americana contemporânea: Chuck Close, Jim Dine e Sol Lewitt. Close ficou conhecido nos anos 70, quando pesquisou novas tecnologias para produzir retratos gigantescos, chegando ao fim do século como um dos pioneiros em arte feita por computador. Jim Dine é um dos melhores ilustradores americanos de livros e Sol Lewitt, que também é crítico e foi um dos mentores do minimalismo, mostra monotipias que reproduzem movimentos de pincel.
A nova geração de artistas franceses vai se encontrar, a partir do dia 10, no Centro Cultural Light (Av. Marechal Floriano, 168, centro do Rio). São 40 obras ínéditas no Brasil de 30 gravadores franceses que trabalham em diversos registros, sendo até possível uma classificação por escolas. O parisiense Frédéric Mary, de 32 anos, faz uma revisão das colagens matissianas com leve toque homófilo. Olivier Fanget, de 36 anos, lembra vagamente Picasso, mas suas figuras são por demais estáticas para insinuar o mesmo clima erótico da Suíte Vollard de seu modelo.
A França, como dizem, cultiva paradoxos e o curador Félix Angel justifica a justaposição de estilos e a adoção de uma linha heterogênea como único meio de traduzir essa diversidade. Nunca é demais lembrar que a primeira matriz do Ocidente foi encontrada em Mâcon. Do século 14 para cá, os franceses fizeram grandes progressos, mas voltam sempre ao passado para buscar inspiração. Jovens gravadores como Laurence Lepron ou Emmanuele Renard são provas vivas desse respeito pela tradição.
Os brasileiros estão espalhados por toda a cidade na Mostra Rio Gravura. Obras de grandes mestres como Goeldi, Segall e Lívio Abramo podem ser vistas no Espaço Cultural dos Correios (Rua Visconde de Itaboraí, 20, centro do Rio). Mas, a mostra imperdível é mesmo a de Iberê Camargo (1914-1994) no Centro de Artes Hélio Oiticica (Rua Luís de Camões, 68, centro do Rio), a partir do dia 10, com 71 gravuras do artista gaúcho, incluindo as que participaram da Bienal de Veneza em 1962.


