Arquivo FolhaRimbaud: tradução para o Português foi inteiramente refeitaA Editora Topbooks lança em setembro o segundo volume da obra completa do escritor francês Arthur Rimbaud (1854-1891). São seis textos da prosa poética do escritor. À exceção de ‘‘Uma Estadia no Inferno’’ e de ‘‘As Iluminações’’, que já haviam sido traduzidos para o português, os demais são inéditos em nossa língua (‘‘Um Coração Sob a Sotaina’’, ‘‘Os Desertos do Amor’’, ‘‘Prosas Evangélicas’’ e ‘‘Carta do Barão de P.’’). A tradução é do poeta e tradutor consagrado Ivo Barroso, que há 40 anos estuda a vida e a obra de Rimbaud.
O lançamento da prosa poética de Rimbaud faz parte do projeto da editora de lançar a obra completa do escritor em português. O primeiro volume, editado em 1994, também com tradução de Barroso, reúne toda a poesia de Rimbaud: são 64 poemas e três sonetos, além de 18 peças curtas e 14 fragmentos atribuídos ao poeta. Após o lançamento da prosa poética, Barroso se dedicará à tradução das cartas que Rimbaud escreveu a amigos, associados comerciais e parentes. Junto com algumas notas e depoimentos de outros escritores, esse material formará o terceiro e último volume da obra completa, ‘‘Correspondência e Adendos’’, que deverá ser lançado em 1999.
Velha paixão A paixão de Ivo Barroso por Rimbaud remonta à década de 50, quando ele traduziu uma das poesias mais conhecidas do autor francês, ‘‘O Soneto das Vogais’’, para o suplemento literário do ‘‘Jornal do Brasil’’. Embora a poesia já tivesse algumas versões em português, a tradução de Barroso foi considerada muito boa pelos críticos, o que o animou a prosseguir, uma vez que a maior parte das poesias de Rimbaud era inédita em português.
‘‘Comecei a estudar a obra dele, a ler tudo o que podia’’, conta. Em 1971, Ênio Silveira, editor da Civilização Brasileira, convidou Barroso a fazer uma nova tradução para o livro ‘‘Une Saison En Enfer’’, que deveria ser publicada em 1973, em comemoração ao centenário da publicação da obra.
O livro só foi publicado em 1977, mas apenas no início deste ano Ivo Barroso soube do motivo do atraso de quatro anos. Antes de entregar os originais para Silveira, o tradutor submeteu-os à apreciação de Alceu de Amoroso Lima, uma das maiores autoridades brasileiras em Rimbaud. Satisfeito com o trabalho de Barroso, o crítico escreveu um texto que ofereceu como prefácio para a edição. ‘‘Só este ano, lendo uma matéria sobre a censura aos livros na época da ditadura, soube que um funcionário da Biblioteca Nacional assinou um parecer contrário à publicação porque o prefácio continha um elogio a Ênio Silveira’’, conta Barroso, lembrando que o editor era conhecido na época por sua resistência à ditadura.
Tradução Barroso conta que, para a inclusão do texto no novo livro a ser lançado pela Topbooks refez a tradução de 1971. ‘‘De lá pra cá, reuni 167 livros sobre o escritor, tenho um conhecimento muito maior de seu trabalho’’, diz. ‘‘Refiz totalmente a tradução em função de tudo o que aprendi’’. Barroso cita como exemplo a primeira frase de ‘‘Uma Estadia no Inferno’’. Enquanto na primeira tradução ele optara por ‘‘minha vida era outrora um festim’’, na versão que será lançada em setembro o que se lê é: ‘‘outrora, minha vida era um festim’’.
O que pode parecer preciosismo para muita gente tem uma explicação bastante razoável. ‘‘Há um estudo de mais de vinte páginas sobre a palavra ‘outrora’ e a importância de o texto começar com ela’’, conta. Com o conhecimento de quem traduziu toda a obra poética de Rimbaud, reproduzindo todos os aspectos formais, os trocadilhos e as rimas sem sacrificar o sentido, Barroso lançou-se à tradução dos textos em prosa que não tinham versão em português. ‘‘Foram vinte anos de leituras, pesquisas e tentativas apenas para a tradução das poesias’’, diz. ‘‘A tradução de Rimbaud tornou-se uma espécie de dever a cumprir, fiz dela um sacerdócio’’.

mockup