Rigor e improvisação
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terça-feira, 26 de agosto de 2008
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
É impossível dissociar a figura de Arrigo Barnabé de ''Clara Crocodilo'', seu impactante álbum de estréia, lançado há mais de duas décadas como um divisor de águas da música popular brasileira.
Inventivo, o disco tornou-se uma obsessão do compositor londrinense, que o regravou quase na íntegra em 1999 e cujo repertório volta a ser revisitado no CD ''Arrigo Barnabé e Paulo Braga, ao Vivo, em Porto''.
O músico, porém, rejeita a noção de ''retomada'' da obra (leia entrevista nessa página). O disco chega às prateleiras pela gravadora Atração Fonográfica. Traz seis peças, quatro delas apresentando versões pianísticas para temas de ''Clara Crocodilo'': ''Office Boy'', ''Sabor de Veneno'', ''Antro Sujo'' (parceria com Regina Porto) e a faixa-título (assinada a quatro mãos com Mário Cortes).
Já clássico, ''Clara Crocodilo'' fundiu inovações formais da vanguarda erudita com elementos de cultura pop, entre eles o rock e as histórias em quadrinhos. Lançado em 1980, o álbum despertou inúmeras polêmicas como não se via desde o movimento tropicalista, particularmente por introduzir o atonalismo livre na seara da música popular.
Agora, ao executar o antigo repertório, Arrigo retira-lhe as referências pop apresentando alguns dos princípios fundamentais de sua técnica composicional. Em texto esclarecedor, Regina Porto assinala no encarte que o artista recupera estudos e anotações de cada peça. ''É como se o músico - que quase se profissionalizou como arquiteto - expusesse as maquetes das próprias edificações sonoras desde seus esboços, estruturas e eixos, agora em uma versão inteiramente nova e reinventada. Frases inteiras musicais, jamais exploradas em público, mas essenciais para o resultado final de cada trabalho, ganham relevo inédito.''
Aqui, no formato instrumental a dois pianos, o rigor da escrita se une à liberdade da improvisação.
Por que retomar temas de ''Clara Crocodilo''?
Arrigo Barnabé: Na verdade, não é uma retomada porque tenho tocado esse material regularmente desde 1992. Sempre apresento esse trabalho quando me pedem uma apresentação pequena. Cheguei a fazer solos, mas depois me enchi e decidi convidar o Paulo Braga para montar um duo de piano. O projeto deu certo. Ele já havia tocado na minha banda Sabor de Veneno e tem uma formação parecida com a minha, que é erudita/popular.
Como surgiu a idéia de gravar o show em Portugal?
Apresentamos esse show em vários lugares: Córdoba (Espanha), Buenos Aires (Argentina) em várias cidades brasileiras como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre (RS), Curitiba e Londrina.
Londrina? Acho que não.
Ah, não fui aí não?
Tenho quase a certeza que não.
O fato é que fui convidado pelo encenador Ricardo Paes para fazer o show de encerramento de um festival de teatro na cidade do Porto, em Portugal. Fui lá com o Paulo tentar fazer algo que lembrasse a banda Sabor de Veneno colocando um pouco de teatralização e mais alguns sons do 'Cidade Oculta' (álbum lançado em 1986). O show ocorreu no dia 10 de julho de 2004. Depois eles mandaram uma gravação do registro do concerto e achei que poderia lançar o material em disco. Conversei com o Wilson Souto (dono da Atração), que planeja relançar toda minha discografia e ele adotou a idéia.
O disco é uma reprodução fiel do show ou você deixou algumas músicas de fora?
Essse show tem variações a cada edição. Improvisamos muito e sempre coloco mais coisas no repertório. Às vezes canto temas do Lupiscínio Rodrigues. Para o disco, escolhi as músicas mais amadurecidas, mais elaboradas. É legal, porque é tudo pianístico, com o Paulo fazendo a parte principal. É um disco para voyeurs, pra você ver o esqueleto das composições.
Como foi combinar o rigor da escrita com a liberdade da improvisação?
Temos muita independência ao interpretar os temas. Trabalhamos com improvisações modulares. No começo de Sabor de Veneno, por exemplo, tocamos em compassos 23/8, mas as subdivisões rítmicas são diferentes.
Há alguma aproximação com o jazz?
Talvez tenha a ver, mas os procedimentos estão mais ligados à música contemporânea, à música erudita dos séculos 20 e 21.
Com essas versões, você retirou o lado pop/popular presente na gravação original de ''Clara Crocodilo'', não?
Eu retirei do universo do entertainment. Não tem nenhuma concessão para o ouvido, mesmo porque é uma curtição minha e do Paulo. Mas não tenho nada contra a figura do entertainer, que não tem uma tradução correspondente no Brasil. Aqui todo munto é artista. Gostava de tocar com a banda, com as meninas.
Embora o CD seja resultado dos shows, e não o contrário, você pensa em fazer alguma turnê promocional?
É difícil, já que estou envolvido com outros projetos e concertos.
E Londrina está em seu roteiro?
O Marco Antonio de Almeida me convidou para fazer um concerto aí durante o Festival de Música, em julho, mas não pude aceitar porque na mesma época estava na Europa.


