São Paulo, 05 (AE) - Apesar de ser mais conhecido por seu trabalho como gestor cultural e pela intensa agitação que vem promovendo à frente do Itaú Cultural, Ricardo Ribenboim não deixou de lado sua produção artística individual, como mostra a intensa agenda de exposições que ele deve cumprir nos próximos meses. Esta semana ele inaugurou uma exposição na Galeria Michael N„gel, em Berlim, que deve seguir nos próximos meses para Munique e Hanover. No fim do ano ele também participará da Feira de Arte Contemporânea (FIAC) de Paris, cuja edição deste ano será dedicada à América Latina.
A exposição de Berlim, inaugurada semana passada, já foi vista pelos brasileiros - com pequenas variações - no ano passado, durante a mostra City Canibal, realizada no Paço das Artes. Dando continuidade a uma linha de trabalho fortemente marcada pelos mitos contemporâneos, apropriando-se de elementos do dia-a-dia para produzir uma arte questionadora e altamente simbólica, Ribenboim desenvolveu nessa obra (composta por 80 trabalhos distintos que se inter-relacionam) um intrincado discurso visual sobre a poder metafórico da Coca-Cola, já explorado largamente pela arte brasileira e mundial.
"O que estou fazendo não é novidade", diz ele, lembrando que essa marca já foi trabalhada de distintas formas por artistas como Cildo Meireles, Waltércio Caldas e até Caetano Veloso - para não mencionar as experiências internacionais de trabalhar com esse símbolo do capitalismo mundial, realizadas por grandes nomes da arte contemporânea como Andy Warhol. Afinal
não se pode ignorar o apelo irresistível de um produto consumido por 30 milhões de pessoas em todo o mundo.
Em vez de usar esse elemento como símbolo da democracia americana, como faz Andy Warhol - "Uma coca é uma coca e nenhuma quantidade de dinheiro lhe pode conseguir uma coca melhor do que a que o cara da esquina está bebendo" - ou para uma crítica virulenta ao domínio imperialista dos EUA (presente em trabalhos como Inserções em Circuitos Ideológicos, de Cildo Meireles), Ribenboim procura dialogar com todas essas iniciativas e com a arte contemporânea das últimas décadas. "O que eu estou procurando fazer é desmistificar esse ícone", explica.
O conjunto de trabalhos assume diferentes vertentes, desde as tentativas de personificar a garrafa de Coca-Cola, explorando sua identidade visual , até a destruição desse elemento simbólico, transformando os cacos de garrafas em vestígios de uma espécie de sítio arqueológico ou da total diluição da imagem do ícone a partir de sua explosão virtual, via computação gráfica. Um dos aspectos mais interessantes desse mergulho que Ribenboim deu no universo pop da Coca-Cola é o diálogo que ele estabelece com outros artistas. Um dos trabalhos
intitulado "Desvio para o Azul" faz referência evidente ao trabalho de Cildo Meireles, fazendo uma paródia com o seu "Desvio para o Vermelho" - instalação mostrada com grande destaque na última Bienal de São Paulo - e remetendo também a "Inserções" (intervenção por meio da qual Meireles escreveu "Yankees Go Home" em garrafas vazias de Coca-Cola e as devolveu ao circuito).
A questão da cor tem grande importância no tema. Afinal, o vermelho é por excelência a cor desse refrigerante. O artista lembra que a indústria multinacional conseguiu até modificar a cor da roupa do Papai Noel por meio da publicidade, já que no início o traje do bom velhinho era azul. Ribenboim também estabelece relações menos evidentes com outros artistas, como as referências à obra de Adriana Varejão que vê nas garrafas em porcelana que apresentam sinais de mutilação. "As feridas e cortes remetem à violência urbana e social", explica.
Ele confessa que vem explorando melhor sua carreira artística internacionalmente, restringindo mais suas atividades no Brasil ao campo da coordenação cultural. Sua última exposição no País ocorreu em 1992, na qual expôs vasta documentação sobre o trabalho com mólides marinhos que realizou durante a conferência internacional Eco92, no Rio. Mas em outubro ele deve inaugurar uma mostra na Galeria Nara Roesler, desta vez apresentando um trabalho relacionado aos objetos de artesanato latino-americano.
"Eu tenho pensado mais em produzir do que em mostrar", diz ele, lembrando que a idéia de percurso é muito importante em sua obra, fazendo com que cada grupo de trabalhos tenha uma forte coesão. Essa ânsia por produzir resultou em uma série de idéias e desenhos que ainda está por ser realizada. Mesmo sem muito tempo para concretizar seus projetos, Ribenboim participou nos últimos anos de uma série de eventos coletivos, como a exposição Limites da Consciência (vista em Genebra, Nova York e São Paulo) e Arte/Cidade 3. (M.H.)

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